MEMÓRIAS DE ABRIL EM JULHO - O MILAGRE DA LIBERDADE

Estamos em mais um ano par e, como manda a tradição, a imagem da Rainha Santa Isabel sai novamente à rua para abraçar a sua cidade. Ao ver as ruas de Coimbra engalanadas para as festividades deste ano, a minha memória recuou, de forma inevitável, cinquenta e dois anos no tempo. Viajei até julho de 1974. Eu tinha apenas oito anos de idade e Portugal acabava de acordar de um longo e cinzento sono que durou quase meio século.
A Revolução dos Cravos tinha acontecido escassos meses antes, fazendo daquela a primeiríssima procissão da nossa padroeira em que o povo saiu à rua em plena liberdade, sem medos herdados ou silêncios encomendados.
Ora, como bem sabemos, onde há uma grande festa da Igreja, há também a devida e animada homenagem ao mundo pagão. Antes de a procissão da noite arrancar, as tascas da beira-rio já operavam em regime de milagre multiplicado: os copos de "tintol" esvaziavam-se à velocidade da luz e os pires de tremoços desapareciam como pãezinhos transformados em rosas.
A liberdade, afinal, também se festejava com vigor ao balcão das tasquinhas da feira popular ou do Casino da Urca. Naquele ano, não era só a procissão que saía à rua — era também a liberdade.
Eu estava com a minha mãe e a minha tia perto do Portugal dos Pequeninos à espera do andor.
Como manda a tradição, são os carniceiros de Coimbra que o carregam sobre os ombros. Falamos de uma estrutura colossal que pesa perto de uma tonelada, distribuída por homens cujo "cabedal" — esculpido à força de carregar carcaças no antigo matadouro municipal — permitia suportar tamanha penitência Aqueles homens eram a força bruta convertida em pura devoção.
A tradição penso que ainda se mantém.
A noite estava quente, pesada, mas embalada por uma enorme multidão que se acotovelava no passeio. À nossa volta, o cenário era deliciosamente pitoresco: uma pequena armada de anjinhos vestidos de D. Dinis, S. Tiago, S. João e variadíssimas rainhas santas, viúvas e casadas. Os fatos, alugados a peso de ouro nessa época nas lojas especializadas de Coimbra, desfilavam com asas de anjos caídos pelo sono e cansaço, ligeiramente tortas. As coroas de cartão, teimavam em cair da cabeça das crianças impacientes.
Nós olhávamos fixamente para a ladeira de Santa Clara. O padre Sebastião, homem de pequena estatura, confundia- se com os miúdos vestidos de anjinhos; só que de anjinho o Sebastião não tinha nada.
De repente, no final da ladeira, ela aparece iluminada, imponente.
O silêncio solene, que se preparava para pairar sobre o Mondego, foi subitamente estilhaçado por um grito masculino, possante e crente, que ecoou no meio da multidão:
— Milagre! Milagre!
A Nossa Senhora da Conceição, que está no cimo da torre da igreja com o mesmo nome, ao lado do Convento de S. Francisco, mexeu-se e inclinou-se para saudar a Rainha!
Gerou-se, de imediato, a confusão e o burburinho. Num ápice, o fervor religioso misturou-se com a histeria coletiva. Houve quem gritasse em pânico, quem se ajoelhasse de pronto no empedrado rústico, e quem chorasse convulsivamente de emoção face a tamanho prodígio celestial.
Afinal de contas, estávamos em 1974, o ano em que tudo parecia possível. Se os militares tinham derrubado uma ditadura com cravos nas espingardas, porque é que uma imagem de pedra não haveria de quebrar a rigidez do estatuto para fazer uma vénia à padroeira?
Porém, a verdade teológica era ligeiramente mais terrena e vinha impregnada a vapor de taberna. O "milagre" não passava de uma valente miragem ótica do bom do senhor que, horas antes, tinha celebrado a queda do fascismo com uns "tintóis" a mais na margem do rio. A inclinação da Santa era, na realidade, a inclinação do próprio cavalheiro, cujo equilíbrio vacilante transformou a torre da igreja numa autêntica Torre de Pisa conimbricense.
Esclarecido o equívoco entre dentes pelas comadres mais sóbrias, a procissão teve de enfrentar uma longa paragem. O andor ficou ali estático, suspenso nos ombros sacrificados daqueles homens de "cabedal, " que aguentaram firmes o peso da fé enquanto a multidão recuperava o fôlego. Reorganizadas as fileiras de anjinhos e velas, a procissão prosseguiu o seu rumo lento e cerimonioso. Houve um enorme fogo de artifício com o bouquet da rainha quando ela chegou à ponte de Santa Clara.
Olhando para trás, percebo que houve mesmo um milagre naquela noite. Durante anos, confesso que não compreendi bem a que milagre aquele homem se referia na sua bebedeira mística.
Hoje sei.
Nossa Senhora da Conceição ficou mesmo ali na sua torre, firme, à espera que a Rainha Santa voltasse a casa. E o povo, entre os risos e as lágrima, pôde finalmente gritar a plenos pulmões aquilo que esteve guardado na garganta durante quase cinquenta anos:
"Milagre,milagre, enfim livres!"
Manuela Jones
