A MARGEM ESQUERDA DE COIMBRA: ONDE A RAINHA ESCOLHEU O SEU POVO

MANUELA JONES 3

 

As festas da cidade de Coimbra celebram-se no dia 4 de Julho. Assinalam o aniversário da morte da Rainha Santa Isabel, ocorrida em 1336 em Estremoz.

Nascida em Saragoça a 11 de fevereiro de 1270, (sem certezas absolutas) a infanta aragonesa tornou-se esposa de D. Dinis, o sexto rei de Portugal, com quem casou na histórica vila de Trancoso a 26 de junho de 1282.

D. Dinis passou à história com o cognome de "O Lavrador", mas a sua visão sobre a governação dividia opiniões. Focado no desenvolvimento económico e no povoamento do reino, o monarca mantinha uma postura pragmática: acreditava que a mendicidade só se evitava obrigando as classes mais baixas a trabalhar a terra. Para o rei, o combate à ociosidade passava pelo trabalho produtivo.
Já a rainha Isabel seguia uma rota guiada pela fé e pela compaixão. Era uma defensora acérrima dos pobres, dos doentes e das mulheres vulneráveis, a quem acolhia e tentava resgatar da miséria. Enquanto o rei procurava a ordem através do trabalho estruturado, a rainha exercia a caridade direta, o que gerava frequentes tensões na corte.

Este ano, as ruas de Coimbra voltam a engalanar-se para a grandiosa procissão da Rainha Santa, uma manifestação de devoção profunda que se realiza sempre nos anos pares. A imagem da padroeira cruza o rio: ela habita na margem esquerda do rio Mondego e pernoita três dias na margem direita, regressando depois em apoteose à sua morada eterna, em Santa Clara.

Santa Clara, que hoje partilha a sua identidade administrativa como União das Freguesias de Santa Clara e Castelo Viegas, foi fundada originalmente como freguesia no ano de 1854. Na sua génese esteve a designação paroquial de São Francisco da Ponte, dado que a freguesia nasceu com sede na igreja do antigo Convento de São Francisco da Ponte, estendendo-se por todos os terrenos a sul do rio.

Mas por que razão escolheu a rainha, no século XIV, a margem esquerda para viver?

A resposta reside na geografia social de Coimbra: aquela margem sempre foi a mais pobre, a mais esquecida, a que as elites sempre trataram com diferença. Durante séculos, a classe nobre e o clero dominavam a "Alta" e a "Baixa" da margem direita; ali era permitido viver com estatuto, estudar na prestigiada Universidade (na altura Estudos Gerais) e ter uma vida diferente.

Já do lado de lá do Mondego, restava a classe operária, os lavradores, as lavadeiras e os mais desfavorecidos. Aqueles que ela defendia. A freguesia que melhor defendeu as mulheres.

É dessa franja trabalhadora e humilde que nascem as alcunhas históricas. Os habitantes da margem esquerda e das zonas suburbanas eram intitulados de "futricas" (os civis que não pertenciam à academia), "japoneses" ou "marroquinos", termos outrora usados pela elite estudantil com tom depreciativo para marcar a fronteira social. No entanto, o que nasceu como discriminação transformou-se num símbolo de profunda resiliência. Há um orgulho imenso nas origens de quem nasce nesta freguesia operária, moldada pela dureza da vida e pela proximidade do rio. Eu nasci deste lado da ponte e tenho orgulho de pertencer a esta freguesia.

A história deste território cruza-se de forma indelével com o antigo Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, inicialmente construido em madeira, onde se deu o célebre Milagre das Rosas. O espaço icónico foi inicialmente fundado em 1283 por outra mulher extraordinária e defensora dos pobres: D. Mor Dias. Nobre abastada e recolhida no Convento de São João das Donas, D. Mor Dias decidiu aplicar os seus imensos bens na fundação de um mosteiro para acolher as monjas de Santa Clara, que viriam a constituir a primeira ordem franciscana feminina em Portugal.

Contudo, a fundação enfrentou a oposição feroz dos "Crúzios" — os poderosos monges do Mosteiro de Santa Cruz. Os cónegos Crúzios, que antes eram os principais herdeiros declarados nos testamentos de D. Mor Dias, moveram uma longa contenda judicial para extinguir a nova ordem das clarissas, temendo perder o controlo sobre aquela herança e contestando a instalação de uma nova casa monástica que lhes retirava influência e dízimos na região. A pressão foi tanta que o mosteiro primitivo chegou a ser encerrado. Só mais tarde, inícios do século XIV, a Rainha Santa Isabel obteve autorização da Santa Sé para o refundar em pedra e assumir o projeto. Um projeto que, talvez, poucos saibam que faz a transição do estilo Românico para o estilo Gótico e que é um monumento raro.

As mulheres e os homens que, como D. Mor Dias ou a própria rainha, abdicavam das suas riquezas e privilégios para se juntarem aos necessitados eram apelidados, na Idade Média, de "pobres de espírito" — uma expressão de matriz bíblica que louvava a humildade absoluta e o desapego voluntário. Hoje, a expressão ganhou uma conotação inteiramente diferente, sendo usada para descrever a ignorância a tontice. Quem abandona os bens para ajudar quem necessita, hoje, é pessoa tonta - o que é interessante!

Para comemorar este dia, fica este apontamento de quem sente Coimbra na pele. Que perdoem os historiadores de profissão que, tantas vezes, guardam o conhecimento para si e não ousam partilhá-lo com o público comum. A história ganha vida quando é contada por quem a sente.

Eu fico feliz quando a vejo regressar a Santa Clara.

Manuela Jones