A APORIA DO ALOJAMENTO ESTUDANTIL

Educaram-me para ser palatável, uma palavra que me ficou a ecoar no pensamento quando a ouvi por estes dias. Depois de tanta pedagogia, tem sido uma vida a redescobrir a minha paleta de sabores, desmanchar tudo o que não devia ter aprendido. Agora sei que não basta desaprender uma vez que é preciso lembrar muitas vezes que não tenho de agradar a outros palatos. Por isso fiz este exercício de pura reflexão quase metafísica.
Ora olhemos para a juventude que deambula pelas nossas ladeiras calcárias. O que move estes jovens? A busca pelo Conhecimento? O Amor à Sabedoria?
- Não, meus amigos. Move-os a busca desesperada por um teto que não desabe e por uma renda que não exija a venda de um órgão vital no mercado negro do desespero.
Instala-se aqui uma contradição ontológica, uma autêntica aporia digna dos debates mais acesos entre Platão e os Sofistas. Refiro-me à gritante e absurda assimetria entre o preço da propina anual e o custo de um quarto numa das nossas repúblicas ou no mercado privado de Coimbra, em pleno ano de 2026.
Analisemos os factos com o rigor que a lógica nos impõe. A propina na Universidade de Coimbra — esse valor que o Estado cobra pelo privilégio do acesso às luzes do saber — encontra-se fixada nos tradicionais 697 euros anuais. Um valor fixo, previsível, quase dogmático na sua estabilidade. Agora, operemos uma conversão dialética para a realidade fenomenológica do alojamento. Esses mesmos 697 euros, que deveriam garantir um ano inteiro de propensões intelectuais, mal chegam hoje para pagar um mês e meio de aluguer num quarto húmido na Alta de Coimbra!
Se Emanuel Kant estivesse vivo e tentasse arrendar um quarto na nossa cidade, ver-se-ia obrigado a reformular o seu Imperativo Categórico. A máxima que dita as ações dos senhorios conimbricenses não visa a universalidade do bem-estar humano; visa a maximização do lucro individual à custa da angústia estudantil. Como explicar que a habitação — uma necessidade biológica primária — custe dez vezes mais do que o próprio alimento do espírito?
As nossas históricas Repúblicas Estudantis, que outrora funcionavam como baluartes da resistência, da partilha e do comunitarismo utópico (não escrevi “comunismo”), debatem-se hoje contra a erosão do tempo e a asfixia imobiliária. Tornaram-se oásis românticos num deserto de ganância. Fora delas, o mercado imobiliário privatizado transformou o humilde beliche num bem de luxo digno de um tratado sobre a mais-valia.
É de uma ironia socrática absolutamente deliciosa. O estudante de 2026 entra na Faculdade de Letras ou de Direito (ou de qualquer outra faculdade - para depois não me mandarem mensagens de ódio) com a carteira leve e a mente aberta. Descobre que a propina é o menor dos seus problemas. Porém o verdadeiro exame de admissão é de natureza puramente matemática e financeira, para encontrar a solução de como esticar um ordenado mínimo dos pais para cobrir os 400 ou 500 euros exigidos por um quarto com "direito a cozinha" (onde a cozinha é um fogão de campismo numa varanda fechada)?
Perante este cenário, a governação municipal mantém a sua postura estoica. Olham para o drama com a impassibilidade de quem atingiu o Nirvana da inércia. Enquanto o mundo discute o futuro das cidades inteligentes, Coimbra desenvolve o conceito da "Cidade dos Sem-Teto Intelectuais".
Concluo, pois, esta minha breve crónica com uma advertência aos novos caloiros: estudem a Ética, leiam a Metafísica, mas, acima de tudo, dominem a arte da sobrevivência. Porque em Coimbra, a ignorância pode ser barata, mas o teto para pensar é um luxo absolutamente inacessível.
Neste momento vou-me refrescar.
Maria Júlia
