REZAR PARA QUE A DR.ª SOFIA NÃO SE REFORME

Uma missiva que pediu clandestinidade vinda diretamente das catacumbas operacionais da Câmara Municipal de Coimbra acaba de aterrar na secretária da nossa Redação. O documento, escrito com as lágrimas de quem espera há décadas por justiça salarial, revela um novo e fascinante mistério administrativo, onde a autarquia dispõe de milhões para pagar processos, corrigir calotes e erros nos projetos de obras públicas, mas não tem computadores, bases de dados ou almas penadas suficientes para pagar o que deve aos seus próprios trabalhadores.
Segundo a denúncia exclusiva obtida por O Ponney, a progressão na carreira — que por lei devia ser tão automática como o aumento do preço da bica — tornou-se um teste de paciência digno de um monge budista. Para receber os devidos tostões correspondentes aos suados 10 pontos de avaliação, os funcionários são obrigados a aguardar dois ou mais anos. E quando o "bolo" finalmente chega, o Fisco, numa demonstração de caridade sem precedentes, devora logo a sua fatia de leão.
O Milagre dos 6 Pontos
A investigação jornalística de O Ponney apurou que o anterior Primeiro-Ministro, António Costa, tentou aliviar o calvário, inventando uma lei de aceleração de carreiras destinada a quem ficou congelado no tempo. Com as novas regras, bastavam 6 pontos para subir de escalão. Uma lufada de ar fresco? Sim, mas não em Coimbra.
Às perguntas legítimas dos trabalhadores, o Departamento de Recursos Humanos responde com uma precisão matemática invejável: "Nem daqui a um ano!"
E qual é a justificação oficial para este enguiço burocrático? Aparentemente, toda a engrenagem humana e financeira da Câmara Municipal repousa sobre os ombros de uma única e heroica funcionária: a Srª. Dr.ª Sofia. De acordo com os relatos recolhidos por este redator, a referida senhora encontra-se à beira de um esgotamento técnico por ter de processar, sozinha e à mão (presume-se que com uma pena e um tinteiro do século XIX), os milhares de processos da autarquia.
30 Meses de Espera para Ficar com as Mãos Vazias
O caso mais flagrante partilhado com o nosso jornal expõe o drama de uma assistente operacional com muitos anos de casa (uma veterana que já viu passar mais presidentes de Câmara do que o Mondego viu passar águas) depois de esperar 30 meses para ver o dinheiro da sua merecida progressão, a montanha pariu um rato. Pois devido aos ajustes retroativos e à fome leonina dos impostos, o saldo final foi quase nada.
O vírus da inércia parece ter atacado de forma severa o pessoal da Biblioteca Municipal e outros serviços camarários, onde dezenas de colegas da nossa testemunha partilham o mesmo estatuto de "fantasmas da progressão". Enquanto a Câmara Municipal gasta o seu latim em grandes transformações urbanas, os computadores dos Recursos Humanos continuam sem uma base de dados que funcione, provando que é mais fácil meter o metroBus a circular na Baixa do que fazer um clique num ficheiro de Excel para atualizar o ordenado de uma funcionária com quatro décadas de serviço.
A questão que se coloca é esta: sem funcionários com tratamento justo como é que se pode esperar uma boa gestão da Câmara Municipal de Coimbra?
TAF
17-07-2026
