CASAS SOCIAS CONSTRUÍDAS COMO LIXO A PREÇO DE LUXO

Os números oficiais provam que, na cidade de Coimbra, reabilitar um teto antigo ou levantar um bloco de raiz custa tanto ao erário público como se os tijolos fossem importados diretamente do Dubai e assentados por trabalhadores com salários de Professores universitários.
O caso mais vistoso localiza-se na Quinta das Bicas, em Taveiro, onde a empresa Tecnorém venceu o concurso para construir 268 fogos de habitação social. Inicialmente, a brincadeira ia ficar por 35,7 milhões de euros — uma média simpática de 133.209 euros por apartamento. Contudo, como uma obra em Coimbra que não derrape não tem direito a honras de Estado, o orçamento ruiu (não serviu para nada) e agora há um "buraco" adicional de cerca de 11 milhões de euros em revisões de preços e custos operacionais e talvez não fique por aqui. O que, assim por baixo, passa para uma média de 174.254 euros por apartamento social só pela construção.
O Mistério do Bairro da Fonte do Castanheiro
Se os custos de Taveiro já faziam levantar o sobrolho a muitos cidadãos de Coimbra (a quem o dinheiro custa muito a ganhar) as contas da reabilitação no Bairro da Fonte do Castanheiro entram diretamente para o domínio do esoterismo financeiro. O executivo anterior também fez a reabilitação de 21 habitações por 2,9 milhões de euros. Ou seja a reabilitação de cada casa custou, em média, 138.000 euros sem considerar o custo da construção que rondará outro tanto.
Mas o verdadeiro prémio de engenharia dourada surge quando cruzamos a verba total de 5,9 milhões de euros aplicada a 33 fogos no mesmo bairro: a média dispara para uns impressionantes 178.788 euros por cada reabilitação! Reabilitar (atenção não é construção é apenas reabilitação) uma casa social em Coimbra tem o preço de 178.000 euros na reabilitação e outro tanto na construção só pelo preço de obra (não é preço de mercado) custa tanto como um T4 de luxo em Coimbra.
Luxo e Lixo
Para provar que o dinheiro público anda a voar a altitudes invulgares, a investigação de O Ponney foi ao mercado real e encontrou, na vizinha freguesia de Souselas e Botão, uma moradia T2 pronta a habitar. Com 116 metros quadrados de área bruta, pátio e uma churrasqueira para grelhar umas febras ao fim de semana, o imóvel de luxo está à venda por redondos 125 mil euros.Mas nunca poderia ser este o preço de um apartamento social, dado que estamos a falar apenas do preço da construção e não o preço de venda que chegaria a preços de T3 de luxo. Mas com dinheiro público constroem-se apartamentos de lixo a preço de luxo.
Ou seja o ridículo está a acontecer, o mercado privado vende uma moradia de luxo com pátio por menos 8 mil euros do que o custo médio da habitação social básica em Taveiro, e por menos 53 mil euros do que custa à Câmara consertar um único fogo no Castanheiro.
O Verão de 2026 e a Dança do PRR
Como o financiamento é a 100% pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), a autarquia parece aplicar a máxima de que "a cavalo dado não se olha o dente" — nem à fatura. A meta de entrega inicial apontava para o primeiro trimestre de 2026, mas, assumindo a tradicional flexibilidade temporal conimbricense, o processo foi faseado. Promete-se agora o arranque da entrega das primeiras 56 chaves para o presente verão de 2026. Resta saber se as chaves vêm banhadas a ouro para justificar o preço.
A pergunta que deixamos: o que se passa com a gestão dos dinheiros públicos? Será que a argamassa municipal leva pó de diamante, ou a Câmara simplesmente esqueceu-se de consultar os preços de venda imobiliária (que já de si estão muito inflacionados) antes de assinar os contratos? Será que por ser dinheiro público não custa nada a gastar?
Tomás Abrantes
17-07-2026
