TRÓLEIS NO FUNDO DA GAVETA COM COBRE NUMA SACA QUALQUER

No ano de 2024, a discussão foi rija. Assistiu-se a uma acesa crispação — roçando a violência verbal — entre a oposição socialista e o anterior executivo da Câmara de Coimbra sobre o fim dos troleicarros.
A ponto de os eleitos do PS carimbarem o então presidente como o “coveiro dos tróleis”. Mas isso foi em 2024. Hoje, em Junho de 2026, a atual Presidente da CMC, Ana Abrunhosa, aplicou a melhor tática de gestão macroeconómica, empurrou o assunto para o fundo da gaveta dos esquecidos. Onde o barulho partidário de ontem deu lugar a um silêncio cúmplice.
O Ponney entende que esta questão é demasiado importante para passar de moda como se fosse um par de calças de bombazina. A verdade nua, crua e desmantelada é que a Infraestruturas de Portugal (IP) já andou a retirar grande parte das catenárias — os cabos aéreos que alimentavam os veículos. Se o trólei não morreu, está pelo menos a soro e sem tomada para ligar à corrente. E a culpa legal é dos diversos executivos da Câmara de Coimbra, que é quem define as linhas dos transportes públicos municipais.
Por exemplo em 2024, a então vereadora do pelouro, Ana Bastos, tentou dourar a pílula. Explicou que a retirada dos cabos se devia às obras do todo-poderoso metroBus e garantiu que, mesmo que o trólei voltasse, "nunca poderia usar o mesmo corredor" do novo brinquedo de Coimbra. Ou seja, gastamos rios de dinheiro a deitar abaixo um sistema elétrico que já funcionava para montar outro sistema elétrico... substancialmente mais caro. Génios da engenharia financeira!
A mesma autarca jurava, na altura, que a intenção era manter os troleicarros vivos num "registo turístico e cultural", porque a sua operação regular "custa o dobro de um autocarro normal". Estranhamente, em 2026, esse plano turístico também foi convenientemente esquecido. A ex-vereadora esqueceu-se ainda de publicar a comparação de custos face ao metroBus. O trólei, que resistia heroicamente desde a sua inauguração em 1947 graças à sua eficácia a subir as colinas escarpadas de Coimbra, foi mandado encostar.
Na verdade, já não circula desde 2017 por causa das obras na Avenida Fernão de Magalhães. Disseram que iam reparar a frota de 12 unidades Salvador Caetano/EFACEC (e mais um Solaris Trolino), mas acabaram a canibalizar os veículos para peças. Hoje, jazem abandonados nas oficinas dos SMTUC na Guarda Inglesa, a ganhar ferrugem e dignidade histórica.
Perante o silêncio sepulcral de 2026, O Ponney faz o serviço público de pesar os prós e os contras deste veterano das subidas.
ARGUMENTOS A FAVOR DOS TROLEICARROS:
Poluição Zero: Como veículos 100% elétricos, não emitem gases nem consomem hidrocarbonetos. Travagem Regenerativa: Conseguem gerar eletricidade ao travar nas descidas acentuadas de Coimbra. A transmissão direta via cabo é 2,2 vezes mais eficiente e muito menos perigosa do que a badalada tecnologia do hidrogénio.
Postal Ilustrado: São a imagem de marca e a identidade de Coimbra, um ativo precioso para o turismo que cidades modernas pagariam milhões para ter.
ARGUMENTOS CONTRA O USO DE TROLEICARROS
Dependência do Cabo: Se as "vassouras" saltam da catenária, o veículo para (embora os modelos modernos já tragam baterias auxiliares).
Apagão Geral: Se falha a luz na rede, a frota fica imobilizada a fazer fila na Solum.
A grande questão que este jornal coloca é o investimento faraónico do metroBus justifica o assassinato deliberado da rede de tróleis, cujas infraestruturas já estavam montadas e pagas?
Mas há um detalhe ainda mais valioso e que exige total transparência por parte do executivo de Ana Abrunhosa, que fim vai levar a gigantesca quantidade de cobre e aço das linhas desmanteladas pela IP?
O Ponney fez as contas por alto: só o cobre de uma das linhas — a que vinha da Rua do Brasil até ao antigo "Bota-Abaixo" — ronda os 120 mil euros.
Numa cidade onde o dinheiro público desaparece mais depressa do que os jacarandás da Sereia, queremos saber onde vai parar o valor desse metal. Com a atual liderança, nem para o turismo os tróleis servem. Resta saber se o cobre vai servir para tapar algum buraco ou se vai ficar esquecido... na saca de alguém.
FG
19-06-2026
