COIMBRA DEVERIA REFLETIR SOBRE O FUTURO DO TRABALHO

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Sendo Coimbra uma histórica e orgulhosa cidade universitária, faz todo o sentido deitarmos as sebentas de lado por cinco minutos e colocar a grande questão existencial: - que tipo de trabalho desejamos para os nossos filhos?

É que o futuro do mercado laboral já não é aquela miragem distante de ficção científica; a transformação digital e a automação estão a entrar-nos pela porta dentro com a naturalidade do ar quente.

E quem não perceber que isto vai dizimar a procura por mão de obra tradicional, corre o risco de acabar a pedir um subsídio à Ministra do Trabalho (daqueles com direito a 15 horas de voluntariado forçado).

A regra deste novo “Admirável Mundo Novo” é cruel, as tarefas repetitivas e rotineiras vão passar por um processo de automação inevitável. As empresas vão agarrar-se com unhas e dentes aos profissionais hiper-especializados e com maior “expertise”, enquanto os colaboradores dedicados a funções menos qualificadas vão receber a tradicional carta de despedimento.

Para que possamos refletir juntos sobre a dimensão da "limpeza" que aí vem, O Ponney organizou os pontos essenciais desta transformação:

Transformação Digital e Automação: O avanço tecnológico, incluindo os algoritmos de Inteligência Artificial, está desenhado para substituir o ser humano em tudo o que não exija criatividade pura (mas simula criatividade roubando ideias e transformando-as); empatia ou a capacidade de tomar decisões complexas sob pressão (que já simula bem). A transformação digital é um processo que simplesmente não vai retroceder. Resta aos profissionais usarem a sua formação para migrar para cargos, não mais complexos, mas mais complicados quando juntam áreas muito diferentes entre si. Mas bem remunerados antes que a máquina lhes tire o tapete.

O impacto, claro, varia de setor para setor.

Nos Supermercados, onde antigamente eram precisos 10 operacionais a registar compras nas caixas, hoje basta um ou dois colaboradores a vigiar os totens de autoatendimento (enquanto os clientes trabalham de borla para a marca).

No Telemarketing, onde operavam 50 almas em simultâneo, agora bastam 30. O resto do trabalho chato foi entregue a um chatbot que filtra as perguntas básicas (e que nos irrita profundamente ao telefone).

Na Saúde, aqui, felizmente, a máquina vacila. Continua a ser indispensável ter uma equipa humana, rápida e qualificada para dar o suporte emocional e clínico que nenhum ecrã consegue replicar.

Para quem acha que isto é alarmismo, o rigor dos dados não mente: um estudo pioneiro conduzido em 2019 na Universidade de Brasília (UnB) identificou que, a manter-se o ritmo de automação, cerca de 30 milhões de empregos seriam extintos até ao ano de 2026. Ora, estamos em Junho de 2026. Se olhar à sua volta e notar que o seu colega de secretária agora é um software que nem sequer bebe café, já sabe quem foi apanhado pela estatística.

Para não ser trocado por um robô, o trabalhador moderno tem de encontrar brechas. O operador de telemarketing, por exemplo, ou aprende a gerir múltiplas plataformas digitais em simultâneo ou tem de se promover a líder da equipa.

Em suma: ou domina a tecnologia, ou é dominado por ela.

Agora a realidade é que devemos perguntar se essas profissões, agora ocupadas pela tecnologia, serão mesmo necessárias?

Por outro lado é interessante que os empresários em Portugal, sobretudo nas áreas de Turismo, Agricultura e Indústria, continuam a pedir gente que trabalhe mais do que as horas definidas pela lei laboral e que ganhem ali a roçar os ordenados mínimos.

É interessante perceber porque a tecnologia não tem respostas para estes problemas. Será que até uma máquina se recusa a trabalhar tanto por menos investimento?

Por outro lado ainda temos a flexibilidade e trabalho remoto amada por chefes que querem poupar mais investimentos.

Uma tendência que veio para ficar e que se tornou o maior aliado da saúde mental em Coimbra.

Afinal, trabalhar a partir de casa permite ao profissional não perder horas preciosas da sua vida em deslocações diárias, o que aumenta drasticamente a qualidade de vida de quem depende do transporte público. Convenhamos que numa cidade onde o metroBus é uma promessa flutuante e os autocarros dos SMTUC aparecem quando o rei faz anos, o teletrabalho não é uma regalia laboral; é uma questão de sobrevivência logística!

Atualmente, as grandes empresas globais já recrutam ativamente em regime de “home office”. Para as organizações, isto é um sonho, não gastam papel higiénico, nem espaço, nem eletricidade e podem contratar o melhor perfil em qualquer parte do mundo, aumentando a concorrência e reduzindo a rotação de pessoal (“turnover”).

Para o colaborador que aprecia o modelo, o ganho de produtividade é evidente graças ao equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, apesar das despesas no final do mês ficarem mais altas.

O grande desafio deste cenário fica do lado das lideranças. Gerir equipas à distância exige novas ferramentas de monitorização que garantam a produtividade sem asfixiar o trabalhadora - é o que se chama a “quadratura do circulo”.

Afinal, seja no escritório da empresa ou na mesa da cozinha, uma gestão eficiente é a única coisa que separa o sucesso comercial do caos organizacional.

O mercado mudou. Resta saber se Coimbra vai conseguir formar os profissionais do futuro ou se vai continuar a ver os seus cérebros a trabalhar remotamente... para empresas de Lisboa, do Porto ou de Silicon Valley.

FG
19-06-2026