SABE TÃO BEM O FRESQUINHO DAS ÁRVORES CORTADAS EM COIMBRA

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Para se conseguir apanhar uma brisa fresca no verão de Coimbra, o cidadão comum já não precisa de ir até ao Jardim da Sereia. Hoje, basta sentar-se em cima de um cepo de árvore acabado de cortar.

No passado ano de 2025 no dia 16 de Junho, um grupo de mais de uma centena de cidadãos manifestou-se, ao final da tarde, contra o abate de grandes árvores na icónica rua Lourenço Almeida de Azevedo.

O Ponney já tinha antecipado a tragédia: chegámos a pedir formalmente à Câmara de Coimbra, via gabinete de marketing da CMC, que confirmasse ou desmentisse o fardamento de carrasco dos nossos jacarandás. Com certeza por excesso de trabalho a carimbar multas de estacionamento, a autarquia entendeu não responder a este jornal. Já lá vai um ano de silêncio sepulcral.

Para percebermos a diferença entre o civismo e o "cinismo" municipal, basta olhar para Lisboa. Na capital, a construção de um parque de estacionamento subterrâneo nos terrenos da antiga Feira Popular previa a remoção de 47 das 75 árvores da Avenida 5 de Outubro.

O plano inicial previa o abate de 25 e o transplante de 22. Contudo, os lisboetas responderam com uma petição pública de mais de 53 mil assinaturas e conseguiram travar as motosserras.

E em Coimbra?

Bom, por cá as palavras "transplante" ou "desvio de traçado" parecem palavrões técnicos. O abate era a única solução final para dar passagem ao autocarro com mania de grandeza chamado "metroBus".

Por isso, as manifestações repetiram-se em 2024, 2025 e agora neste ano de 2026, juntando cidadãos indignados no exato dia em que a rua foi encerrada para dar continuidade às obras.

O resultado está à vista de quem passa: em Junho de 2026, a rua continua completamente esburacada, mas o deserto já foi criado. As árvores já foram cortadas. Umas tombaram sob o antigo executivo e as restantes foram ao chão com o atual mandato de Ana Abrunhosa, que, ironicamente, até contou com o apoio do PAN.

Pelos vistos, a política de falta de transparência e de ignorar a "populaça" é um vírus que se transmite por contágio no edifício dos Paços do Concelho. O movimento ClimAção Centro já tinha avisado a agência LUSA de que isto era um "atentado ao património arbóreo" e uma "desfiguração brutal" de uma zona classificada como Património Mundial da UNESCO. Na mesma altura, o arquiteto e professor Adelino Gonçalves acusava a Câmara e a Metro Mondego de uma total "falta de vontade de informar previamente as pessoas".

E a verdade é que os executivos sofrem de uma alergia crónica à informação. Ninguém percebe se os jacarandás foram executados por "imperativos fitossanitários" (a velha desculpa de que a árvore está constipada) ou se faziam cócegas nos espelhos retrovisores do metroBus.

O ex-presidente da Câmara, José Manuel Silva, chegou a gabar-se ao diário "As Beiras" de que, em 2023, tinha conseguido uma "vitória": reduzir o abate de 43 para apenas 11 jacarandás. A grande conquista não foi mudar o traçado nem transplantar o património da cidade; foi apenas escolher quais as 11 árvores que iam para o corredor da morte. E foram mesmo.

Para trás fica a postura folclórica e reivindicativa do próprio José Manuel Silva quando, a 25 de Março de 2019, enquanto vereador da oposição a Manuel Machado, levou música de intervenção para a reunião de Câmara para alegar que o "25 de Abril ainda não tinha chegado aos Paços do Concelho".

O mesmo político que em 2019 exigia liberdade e audição pública, mais tarde, enquanto presidente, descartou a manifestação popular dizendo que se tratava apenas de "uma manifestação de partidos que fazem parte de uma coligação contra o PS", atirando as culpas para a "coligação de extrema-esquerda artificial".

A velha e clássica tática do "não fui eu, foi o outro que começou", esquecendo-se de que os seus próprios eleitores esperavam mais do que um mero corta-e-cola das políticas do executivo anterior.

A página de Facebook do Movimento de Humor, irmã gémea d’O Ponney, ainda lançou uma petição pública para recolher assinaturas e tentar salvar o que restava da sombra da rua Lourenço Almeida de Azevedo. Mas de nada serviu.

Coimbra demonstrou ser biologicamente alérgica ao debate público. Ao contrário de Lisboa ou do Porto, por cá prefere-se o progresso em canal aberto, sem árvores, com muito entulho, e com a promessa de que um dia, entre um mandato e outro, haverá um autocarro elétrico a passar por cima das nossas saudades.

Para os conimbricenses fica a torreira do sol e a poluição dos pneus do metroBus.

AF
19-06-2026