O ANTIGO PEDIÁTRICO COM DIREITO A DERRAPAGEM CULTURAL

Para se perceber a velocidade da burocracia em Coimbra, o leitor comum não precisa de olhar, apenas, para as obras do MetroBus, basta passar pelo complexo do antigo Hospital Pediátrico, situado entre a Avenida Bissaya Barreto e a Alameda Armando Gonçalves.
Após mais de uma década e meia de abandono total, evidente vandalismo e mato a crescer pelas janelas desde a sua desativação em 2011, aconteceu finalmente o "milagre", tendo, em Fevereiro de 2025, a Câmara Municipal de Coimbra assumido oficialmente a gestão do imóvel, celebrando um acordo de transferência de património com a empresa estatal Estamo.
A promessa atual é o de transformar aquele deserto de betão num polo cultural num futuro que, conhecendo a nossa praça, promete ser muito, mas muito distante.
O Ponney gosta de puxar pela memória e lembra que, em 2020, (seis anos atrás) quando o edifício já metia dó, Inês Massano (então mestranda em Arquitetura na FCTUC) dedicou a sua dissertação de mestrado a este cadáver imobiliário.
A jovem arquiteta projetou para o local algo que qualquer mente dotada de bom senso assinaria por baixo: a deslocalização dos Serviços Administrativos e das Consultas Externas do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC).
«É um projeto que se adaptava bastante bem ao local e atenuava o estrangulamento do CHUC, que é um problema grave no funcionamento do Centro», explicava Inês Massano na altura.
Mas, pelo que tem acontecido em Coimbra nos últimos anos, as ideias lógicas e planeadas com pés e cabeças tendem a sofrer de incompatibilidade crónica com as agendas políticas.
Hoje, em pleno ano de Junho de 2026, o espaço está num estado de ruína consideravelmente pior do que o relatado pela arquiteta há seis anos.
Sem utilização ou vigilância apertada, o complexo tornou-se o cenário ideal para a comunidade de exploração urbana (urbex) aumentar o apetite imobiliário e até tirar fotografias com ambiente pós-apocalíptico. É um fenómeno fascinante, onde a atual Presidente da Câmara, Ana Abrunhosa, tem demonstrado uma preocupação tão intensa com o urbanismo que até avançou com a polémica suspensão do Plano Diretor Municipal (PDM). Contudo, no que toca, também, ao antigo Pediátrico, a estratégia parece ser a de esperar mais 15 anos para ver se as paredes caem sozinhas.
Porém quando a obra finalmente começar, já todos prevemos que vai derrapar para o dobro do orçamento inicial, para manter a tradição da engenharia civil de Coimbra que devem ter orçamentistas que chumbavam nas provas de aritmética mais básica.
Se recuarmos um pouco no tempo, o desenho do anterior executivo de José Manuel Silva — ainda num esboço muito tímido — apontava para a criação de uma "Casa das Comunidades". Há más línguas nos bastidores que dizem que este plano estruturado para dar nova vida ao antigo hospital talvez estivesse de alguma forma ligado ao conhecido carinho do ex-presidente pela associação fundada pelo seu próprio irmão. Coincidências felizes da política local.
Agora, em 2026, as intenções oficiais mudaram de agulha e apontam para uma infraestrutura de dinamização regional, servindo inclusive como uma das bases para a Bienal de Arte Contemporânea Anozero, que divide as honras com o Convento de São Francisco. Levar a arte contemporânea (de complicado entendimento para a esmagadora maioria das pessoas) para um edifício em zona muito nobre é, de facto, de uma estratégia de grande esperteza.
No meio de tanta indefinição, de tantos esboços e de tanta arte conceptual, fica a pergunta que O Ponney deixa no ar:
- Não seria muito mais evidente, útil e urgente dar ouvidos à arquiteta Inês Massano, aliviando o sufoco do CHUC?
É que a cultura é muito importante, mas o espaço está privilegiado para o apoio à Saúde onde as consultas externas, a horas, ajudariam mais à organização do espaço urbanístico de Coimbra.
JAG
19-06-2026
