(I)MORALIDADES COIMBRÃS:

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O ASSASSINATO DE MARIA TELES PELO INFANTE D. JOÃO, POR "ME PORDES AS CORNAS, DORMINDO COM OUTREM" / O SEU ÚNICO FILHO D. FERNANDO, SENHOR DE EÇA, O DISSOLUTO, CASADO COM VÁRIAS MULHERES TODAS VIVAS, DAS QUAIS TEVE MAIS DE 40 FILHOS E FILHAS, ENTRE AS QUAIS AS ABADESSAS EÇAS, DO LORVÃO, ESSAS DEVASSAS

DE RONDA À TORRE DA CONTENDA

 

O PAÇO DE SOBRE-RIBAS

O ASSASSINATO DE MARIA TELES PELO INFANTE D. JOÃO

O SEU ÚNICO FILHO D. FERNANDO, SENHOR DE EÇA, O DISSOLUTO

AS ABADESSAS EÇAS, ESSAS DEVASSAS

 

A Torre da Contenda, no lanço da cerca de Coimbra “sobre-a-riba”, ligada por um adarve à Torre do Prior do Ameal (a mítica Torre de Anto), viria, por volta de 1514, por iniciativa do poderoso licenciado João Vaz (que comprou quantos arcos, torres e traços de muralha conseguiu) a ser rodeada por uma complexa construção: a Casa de Baixo, envolvendo a Torre, e, do outro lado da rua, a Casa de Cima, resultado da reconstrução de uns pardieiros que ele também comprara. Para ligar as duas Casas, obteve autorização para construir uma passagem, com um balcão por cima, “pois não era rua corrente de bestas nem de gente senão pouca e lugar escuso onde nunca vai procissão nem outra coisa pública” (Isabel Anjinho, “A Fortificação de Coimbra”, p. 172).

 

Se a fachada da Torre da Contenda virada ao rio é aberta e ensolarada, já a parte do Paço que dá para a rua, com o seu arco baixo e a confusa proliferação de medalhões com cabeças de homens e mulheres (o Rei David tocando harpa, a Rainha Dido, uma mulher chamada Marta) e alguns com a Cruz de Cristo, tem algo de sombrio e sinistro, cenário adequado a que se tivesse criado a lenda de ter sido exatamente ali que o Infante D. João, filho de D. Pedro I e de Inês de Castro, assassinou a sua mulher D. Maria Teles, por, nas palavras dele, fielmente reproduzidas por Fernão Lopes, “me pordes as cornas, dormindo com outrem”.

 

Esse mito era reforçado pela aludida existência de medalhões com a Cruz de Cristo, sendo sabido que o filho do primeiro casamento de Maria Teles (com Álvaro Dias de Sousa), D. Lopo Dias, era Mestre da Ordem de Cristo, cujas rendas eram postas em poder da mãe. Daí que o Paço de Sobre-Ribas por vezes apareça designado por Casa dos Templários e ainda Palácio do Infante D. João ou de D. Maria Teles.

 

Apesar de tudo isto não passar de lenda, sucessivas gerações de moradores no Paço de Sobre-Ribas asseguram ter ouvido de noite o fantasma de Maria Teles gritando a sua inocência, e um seu proprietário mostrava “às suas visitas o quarto, cujas paredes e pavimento foram tintos do sangue espargido pelas mortais feridas, que no peito daquela infeliz senhora descarregou o seu alucinado marido” (F. A. Martins de Carvalho, “Portas e Arcos de Coimbra”, 1942, p. 133).

 

No entanto, Fernão Lopes é claro em situar o lugar do assassinato nas casas de Álvaro Fernandes de Carvalho [nascido cerca de 1315, Senhor da honra de Farinha Podre (que foi concelho até 1853, data em que o seu território foi dividido pelos concelhos de Penacova, Arganil e Tábua), Meirinho-mor do Reino no reinado de D. Pedro I (1357-1367), Vassalo de D. Fernando I (1367-1383), que lhe doou casas em Coimbra], onde Maria Teles se recolhera, perto da “igreja de S. Bartolomeu, donde nasce uma estreita rua que direitamente vai sair às portas daquelas casas”.

 

A localização destas casas deve corresponder à zona do Paço do Conde [Conde de Cantanhede, depois Marquês de Marialva, título cuja origem remonta a D. Gonçalo Teles de Menezes, 1.º conde de Neiva, irmão de D. João Afonso, conde de Barcelos (que haveria de fornecer ao Infante D. João o bulhão com que matou D. Maria Teles de Menezes, por intriga de D. Leonor Teles de Menezes, irmã daqueles)]. Atualmente, a zona do Paço do Conde fica a meio da Rua Adelino Veiga, mas na gravura de Coimbra da autoria de Hoefnagel (que visitou Coimbra em 1566/67), o Paço do Conde surge assinalado com as letras mm, com frente para a Praça Velha (letra P), gravura onde estranhamente não aparece a Igreja de S. Bartolomeu, mas apenas a de S. Tiago (letra N), com o antigo Hospital Real (letras nn) em frente, na esquina com a Rua das Solas (actual Adelino Veiga).

 

Maria Teles de Menezes (Coimbra, c. 1338 - novembro 1379), tal como sua irmã Leonor (Trás-os-Montes e Alto Douro, c. 1350 - Tordesilhas, 27 de abril de 1386), a “Aleivosa”, eram duas mulheres fatais: belíssimas e ambiciosas, rapidamente se desembaraçaram dos seus primeiros casamentos, para casarem com dois meio-irmãos, filhos do rei D. Pedro I: Leonor com o Rei D. Fernando (filho de Constança), Maria com o Infante D. João (filho de Inês de Castro).

 

Leonor cruzou-se com Fernando, o “Formoso”, quando foi visitar a sua irmã Maria, que era aia de D. Beatriz (filha de Pedro e Inês), e logo decidiu casar com ele: havia um pequeno impedimento, porque Leonor estava casada com João Lourenço da Cunha, o que foi rapidamente ultrapassado com a anulação desse casamento com oportuna alegação de consanguinidade. Contrariando o sentimento popular e de grande parte da nobreza, Fernando vai casar com Leonor em Leça do Bailio em 15 de maio de 1372 e nove meses depois, em meados de Fevereiro de 1373, nasce a filha de ambos, Beatriz.

 

Maria casara com Álvaro Dias de Sousa (Santarém, c. 1330 - Espanha, c. 1365), senhor de Mafra e Ericeira, de quem teve um filho, D. Lopo Dias, Mestre da Ordem de Cristo. Mas já se tinha livrado do primeiro marido, que segundo Fernão Lopes, “receando-se que a grã sanha” que por ele tinha o Rei D. Pedro, que “havia afazimento com uma dona com a qual Álvaro Dias foi culpado que dormia”, e que por essa razão D. Pedro lhe quisesse dar “alguma desonrada e perigosa execução”, “foi-se fora do reino, e andando assim por tempo morrer de sua natural morte”.

 

“E ficou Maria viúva assaz em boa idade de mancebia, formosa e aposta e muito graciosa, achegada de muitos fidalgos seus parentes e de quaisquer outros que bons fossem, honrando-os muito, segundo cada um merecia, dando-lhes desde aí grande gasalhado.”

 

Quanto ao Infante D. João, diz o cronista que “era muito igual homem em corpo e gesto, bem composto em parecer e feições, e comprido de muito boas manhas, muito mesurado e pação, agasalhador de muitos fidalgos do reino e estrangeiros, e muito grado e prestador a qualquer que nele catasse cobro, dando-lhes cavalos e mulas e armas e vestidos e dinheiros e aves e alãos e quaisquer outras coisas que em seu poder fosse de dar”. Mas do que mais gostava era de andar à caça: “era muito usado de saltar e correr e remessar a cavalo e a pé, sofredor de grandes trabalhos a monte e a caça e semelhantes desenfadamentos, e a ele por dias e noites nunca perdia afã, levantando-se duas e três horas antemanhã, aprazando de noite por invernos e calmas, desde aí cavalgar e correr fragas e montes espessos, e saltar regatos e córregos de grandes cajões, caindo neles e os cavalos sobre ele. Em tanto era querençoso de montes, que nunca receava porco nem urso com que se encontrasse, a pé nem a cavalo.”

 

Quando o Infante D. João, nos paços de D. Beatriz, sua irmã, se cruzou com a bela viúva D. Maria Teles, logo se apaixonou por ela, no que foi correspondido. Mas D. Maria era “sisuda”, e tendo marcado um encontro numa noite, nos seus aposentos, para receber o Infante D. João, quando este apareceu ficou surpreendido por ver, numa antecâmara da alcova, um altar posto e várias testemunhas. Maria lhe disse: “primeiro casaremos, depois nos amaremos”. João cedeu: casaram e depois amaram-se. Desse amor nasceu D. Fernando, futuro senhor de Eça (ou Eza, na Galiza).

 

Quando se soube que João casara secretamente com Maria e com ela dormia, a aleivosa Leonor ficou raivosa, por temer que, desaparecido o já enfermiço D. Fernando, sua filha Beatriz fosse ultrapassada na sucessão ao trono por sua irmã Maria, casada com um filho de D. Pedro I

 

Começou então a sua trama diabólica: convenceu o Infante D. João que este fizera muito mal em casar com D. Maria Teles, pois ela, Leonor, tencionava casá-lo com a sua filha Beatriz, assegurando-lhes o trono. Influenciável. D. João decide acabar com Maria. Faltava um pretexto para a morte ser legítima, e esse seria naturalmente a infidelidade de Maria, mesmo infundada: “quem seu cão quer matar, raiva lhe põem nome” (Fernão Lopes).

 

Envergando “uma cota muito louçã e um bulhão [punhal] bem guarnido, à guisa de basalarte, e uma faca bem formosa, que lhe trouxeram de Inglaterra”, que lhe dera o Conde de Barcelos, D. João Afonso Teles de Menezes, irmão de Maria e de Leonor, partiu o Infante D. João de Alcanhões, onde estivera com o rei e a rainha, a caminho de Tomar, onde recusou convite para jantar que lhe fez o mestre da Ordem de Cristo, filho do primeiro casamento de Maria Teles, que, estranhando a recusa, manda avisar a mãe, a quem já haviam referido que algo de grave contra ela se tramava, recolhendo-se às casas de Álvaro Fernandes de Castro, a S. Bartolomeu, onde o Infante a vai encontrar, ainda no leito, sem nenhum vestido ou manto. Para cobrir “as vergonhosas partes”, envolveu todo o corpo numa branca colcha, encostando-se a uma parede, dizendo:

“ – «Ó senhor, que vinda é esta tão desacostumada?!»

– «Boa dona, disse ele, agora o sabereis. Vós andastes dizendo que eu era vosso marido e vós minha mulher, e exemprastes o reino todo, até que o soube el-rei e a rainha e toda sua corte, que era azo de me mandarem matar ou pôr em prisão por sempre; e vós devereis de encobrir tal razão contra todos os do mundo, e, se vós minha mulher sois, portanto merecereis vós melhor a morte, por me pordes as cornas, dormindo com outrem.»

– «Oh! Senhor! Eu entendo bem que vós vindes mal aconselhado, e perdoe Deus a quem vos tal conselho deu, e se prover a Vossa Mercê de vos apartardes comigo um pouco nesta câmara, ou se façam estes afora, eu vos entendo de mostrar mais proveitoso conselho do que vos deram contra mim; e por mercê vós ouvi-me, e tempo tendes para fazer o que vos prouver.»

E ele não lhe quis ouvir suas razões, nem lhe dar espaço para se escusar do erro que não fizera, mas disse:

– «Não vim eu aqui para estar convosco em palavras.»

Então deu uma grande tirada pela ponta da colcha e derribou-a em terra, e parte do seu mui alvo corpo foi descoberto, em vista dos que eram presentes, em tanto que os mais deles em que mesura e boa vergonha havia se alongaram de tal vista, que lhes era dolorosa de ver, e não se podiam ter de lágrimas e soluços, como se fosse mãe de cada um deles. E naquele derribar que o infante fez, lhe deu com o bulhão que lhe dera seu irmão dela, por entre os ombros e os peitos, cerca do coração; e ela deu umas altas vozes muito doridas, dizendo: «Mãe de Deus, acorre-me e havei mercê desta minha alma». E tirando o bulhão dela lhe deu outra ferida nas virilhas, e ela levantou outra voz e disse: «Jesus, filho da Virgem, acorre-me»; e esta foi sua postumeira palavra, dando o espírito e bofando muito sangue dela”.

 

Enquanto isto ocorria, “em outra câmara detrás daquela jazia uma ama e camareiras, com um seu filho”.

 

Este filho de Maria Teles e do Infante D. João era D. Fernando, que veio a ser Senhor de Eça (ou Eza), na Galiza.

 

Por razões hereditárias, segundo a teoria de Anselmo Braancamp Freire (“Brasões da Sala de Sintra”, vol. I, p. 87), tornou-se um grande dissoluto, chegando a estar casado ao mesmo tempo com várias esposas vivas, e tendo tido um total de 42 filhos: “Criado ao desamparo, sem pai, nem mãe, nem quem por ele realmente se interessasse, saiu um devasso acabado. O seu fraco era casar e, com o maior desassombro o fazia, chegando ao ponto de ter às vezes três e quatro mulheres vivas. Então filhos, isso era um nunca mais acabar. Quarenta e dois lhe assinam os nobiliários!”

De acordo com a descrição de Manuel José da Costa Felgueiras Gaio, no “Nobiliário das Famílias de Portugal”.vol. V, p. 35, "...foi casado com muitas mulheres todas vivas, devia ter boa consciência, ou seguir o Alcorão, em que se permitem muitas mulheres...”

Da sua numerosa descendência, salientam-se várias abadessas, as Abadessas Eças, ”essas dissolutas”, que herdaram do pai e dos avós andarem sempre com “fogo no corpo”. A mais famosa foi D. Catarina de Eça, abadessa de Lorvão entre 1472 e 1521, constando do seu vasto currículo a construção da igreja e do paço do Botão, o novo paço abacial em Lorvão, e a reforma da igreja do mosteiro, com novos sinos, novo retábulo-mor, esculturas, paramentos, alfaias litúrgicas, e tapeçarias. Sucede-lhe sua prima, D. Margarida d’Eça [1522-1537]. Depois da morte de D. Margarida o mosteiro entra num período conturbado com a intromissão violenta de D. João III, o “Pio”, destronando a nova abadessa eleita, D. Filipa d’Eça.

 

“Sobre as filhas” – de D. Fernando de Portugal, Senhor de Eça – “que foram religiosas”, Braamcamp Freire escreve: “foi caraterístico o porte desregrado das senhoras das primeiras gerações dos Eças, e bem revelador do atavismo, ou melhor, da hereditariedade, a que se mostraram sujeitas”. E continua: “D. Beatriz, abadessa de Celas, teve filhos do bispo D. João de Abreu; D. Catarina de Eça, irmã de D. Beatriz e famosa abadessa de Lorvão, foi amante de Pero Gomes de Abreu, senhor de Regalados e sobrinho neto do bispo; D. Joana de Eça, abadessa de Celas e filha de João Rodrigues de Azevedo e de D. Branca de Eça, irmã das outras duas abadessas, teve amores com Vasco Gomes de Abreu, poeta do Cancioneiro e sobrinho do bispo D. João e finalmente, D. Filipa de Eça, abadessa de Val de Madeiros e depois do Lorvão, filha de D. Pedro de Eça, irmão das primeiras Abadessas, foi amante do irmão de Vasco, o nosso João Gomes de Abreu das trovas” (“Brasões da Sala de Sintra, vol. I, p. 98). A terminar, acrescenta que em carta do rei D. João III datada de 31-8-1543 para o embaixador de Portugal junto do Papa, o rei pede ajuda para combater o comportamento dissoluto das Eças no mosteiro de Lorvão.”

 

D. Fernando, o Senhor de Eça, filho do Infante D. João e de D. Maria Teles, faleceu, arrependido dos seus desvarios, mortificado com penitências e envolto no hábito de São Francisco, no seu Castelo de Eça, sendo trasladado para o Convento do Espírito Santo (ou de S. Francisco), em Gouveia, onde seu corpo chegou a 25 de janeiro de 1479, sendo sepultado na capela-mor em túmulo com o seu brasão de armas e o seguinte epitáfio: «Aqui jaz Fernando d'Eça filho do Infante João neto d'El-Rei Pedro de Portugal, & da Infante Inez de Castro sua mulher; & bisneto d'El-Rei D. Afonso, o que venceu a batalha do Salado. Este Fernando foi padre de Catarina, Abadessa de Lorvão, que o aqui mandou trasladar na Era do Nascimento de nosso senhor Jesu Christo de mil & quatrocentos & setenta & nove anos, XXV dias de janeiro».

Amen!

Mário Torres