COIMBRA FORMA E A REALIDADE AJUSTA AS EXPECTATIVAS

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Durante séculos, a promessa foi clara de que estudar, formar-se, construir uma carreira com sentido. Em cidades universitárias como Coimbra, essa narrativa ganhou estatuto quase institucional. Afinal, é lá que vive uma das mais antigas “fábricas de futuros” da Europa, a Universidade de Coimbra, onde gerações inteiras passaram a acreditar que o conhecimento seria o caminho mais seguro para uma vida não apenas estável, mas também significativa.

A teoria mantém-se elegante. A prática, como mostram os dados globais, tornou-se, digamos, mais “criativa”.

Segundo os estudos internacionais da Gallup, apenas cerca de 20% dos trabalhadores, mundiais, é que se sentem verdadeiramente envolvidos no que fazem. Uma estatística que levanta uma questão desconfortável: o que acontece entre a licenciatura e a desmotivação?
Em que ponto do percurso é que a vocação dá lugar ao salário e, em muitos casos, apenas ao suficiente para pagar a renda?

Em Coimbra, o ensino superior continua a formar juristas, médicos, engenheiros e uma variedade crescente de especialistas altamente qualificados. O problema não está na formação essa, em muitos casos, continua sólida e exigente. Está no encontro entre essa formação e um mercado de trabalho global onde estabilidade, propósito e boas condições raramente aparecem no mesmo anúncio.

A Sociologia do Trabalho há muito que descreve este desfasamento. O conceito de alienação, que outrora evocava fábricas e produção em massa, adapta-se hoje com surpreendente facilidade a escritórios modernos e plataformas digitais. O diplomado de hoje pode não repetir tarefas mecânicas numa linha de montagem, mas passa horas a produzir relatórios, análises ou conteúdos cujo impacto raramente vê ou, mesmo, sente.

O resultado é uma espécie de transição silenciosa que parte da idealização académica para o duro pragmatismo profissional. Em termos simples, muitos saem de Coimbra com ambição de carreira e entram no mercado com necessidade de rendimento. Pelo caminho, ajustam expectativas. Às vezes com realismo, mas muitos com absoluta resignação.

A precariedade, entretanto, deixou de ser um fenómeno periférico para se tornar estrutural. Contratos a prazo, estágios prolongados, recibos verdes com vocação permanente e assim, tudo isto, compõe um cenário onde o primeiro emprego raramente é um ponto de chegada. É, no melhor dos casos, um ponto de partida que se prolonga indefinidamente.

Surge então uma realidade curiosa onde nunca houve tantos diplomados, e nunca foi tão comum trabalhar em funções que pouco têm a ver com a área de formação. Não por falta de capacidade, mas por falta de correspondência. O mercado absorve, mas nem sempre aproveita.

Alguns investigadores descrevem este fenómeno como uma forma de “inemprego”: não se está fora do sistema, mas também não se está plenamente integrado. Trabalha-se, ganha-se experiência, mas a sensação de progresso mantém-se em suspenso. É uma espécie de estágio existencial prolongado, sem data clara de efetivação.

Entretanto, a narrativa do “trabalho com propósito” continua viva. Especialmente nos corredores académicos. E não sem razão, pois é difícil mobilizar estudantes em torno da ideia de que, após anos de esforço, o mais provável é entrarem numa maioria global que trabalha sobretudo para sobreviver. A pedagogia ainda aposta na exceção como horizonte, mesmo quando a regra aponta noutra direção.

E, no entanto, há mérito nesse ideal. Porque, apesar de tudo, continua a haver quem o concretize. Antigos estudantes de Universidade de Coimbra que encontram carreiras alinhadas com vocação, propósito e estabilidade. Não são mito, mas também não são maioria.

Para os restantes, o percurso é mais ambíguo. Trabalha-se, aprende-se, adapta-se. E, com o tempo, redefine-se o que significa “sucesso”. Já não apenas realização profissional, mas equilíbrio possível. Já não apenas vocação, mas sustentabilidade.

No fim, a ligação entre Coimbra e o mercado de trabalho global permanece intacta, apenas menos linear do que o folheto institucional sugere. A universidade continua a preparar para o futuro. Mas o futuro, por sua vez, continua a improvisar.

E no meio desse desencontro elegante para más políticas, milhões de diplomados seguem o mesmo guião discreto, que é o de aplicar conhecimentos, cumprir horários e, de vez em quando, perguntar (com alguma ironia) em que aula se faltou quando explicaram como encontrar sentido no mercado de trabalho.

Provavelmente não faltaram.
A matéria é que ainda não foi dada.

JAG
24-04-2026