O SILÊNCIO QUE AJUDA A MATAR A DEMOCRACIA

Confesso-me a um padre mouco a minha mais profunda aversão para comentar a futilidade da nossa fauna política. É um exercício fastidioso.
A discussão, que por imperativo categórico deveria habitar a nobre esfera da racionalidade pura, é prontamente arrastada para a via rápida do fanatismo futebolístico. Os acólitos da tribo A sofrem de uma miopia cognitiva terminal, onde qualquer crítica à sua equipa é fruto do "fanatismo" alheio, enquanto os devotos da tribo B são sempre os bárbaros.
Rasga-se facilmente o tecido da razão e o “homo sapiens sapiens” regressa ao estado de natureza de Hobbes, num espetáculo de grunhidos digno de um documentário do National Geographic.
Contudo, a dignidade da Democracia obriga-me a suspender o meu ascetismo político, com motivo forte formado pelo burlesco escândalo que assolou as eleições do Partido Socialista na mui nobre cidade de Coimbra.
Para que os linchadores de serviço não me arrastem para a referida "via rápida do ódio", cumpre-me fazer uma profissão de fé: sinto-me ideologicamente mais próxima do PS do que de qualquer outra agremiação que habite o nosso hemiciclo. Pronto, já o disse e por isso o crescente da minha indignação.
E é precisamente por nutrir essa simpatia que o caso me perturba, não a alma (que essa já entreguei aos clássicos), mas à inteligência.
Regressemos à génese desta ópera-bufa com contornos de feira. Quatro ilustres e indignados camaradas — numa epístola enviada a José Luís Carneiro — denunciaram o que apelidaram de “violações grosseiras dos estatutos”. A audácia da denúncia era tal que punha em causa a própria exequibilidade do sufrágio interno.
Ora, meus amigos e amigas, estamos a falar do âmago da Democracia. Convém recordar que o PS, na sua gloriosa coreografia de erros e acertos (é justo ser-se justo), sempre se autoproclamou o Guardião Supremo, o Vigilante Noturno da Democracia em solo luso.
Até os mais cínicos detratores da direita concediam essa premissa. O único que parece ignorar este estatuto é, paradoxalmente, o seu próprio secretário-geral.
A missiva dos revoltosos de Coimbra era de uma enorme clareza jurídica, onde se exigia a suspensão imediata da palhaçada eleitoral, a depuração cirúrgica dos Cadernos e o reencaminhamento do dossier para o Ministério Público. Estava em causa o alegado e milagroso "pagamento massivo de quotas" — uma engrenagem financeira tão criativa que roça o código penal. O milagre da multiplicação dos pães foi substituído pelo milagre da multiplicação dos militantes pagantes. Tudo isto, claro, invocado em nome dos conceitos transcendentais da Transparência e da Declaração de Princípios.
Um primor de civismo que faria Kant chorar de emoção.
O apelo tinha a clareza de um silogismo aristotélico e visava defender a grande bandeira do partido. Mas, como diria Camões na sua maior sabedoria: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e, aparentemente, esvaziam-se as caixas de princípios para encher as de votos.
A confirmação desta mutação ontológica surgiu na postura de José Luís Carneiro que face à insistência dos jornalistas sobre se recebeu a carta de militantes do PS, incluindo o histórico António Campos, a pedir que suspenda as eleições para a federação de Coimbra – denunciando-se “violação dos estatutos”, pagamento “massivo de quotas”, “ativação de sindicatos de votos” e cadernos eleitorais nulos – o líder socialista remeteu-se ao silêncio.
Dá-me vontade de gritar para acabar com o silêncio.
- Bolas! Acordem!
Não se trata apenas do PS, trata-se da defesa da Democracia.
Maria Júlia
