O Nacionalismo das Quatro Linhas e a Derrota por Goleada

OTAVIO FERREIRA26

 

Há países com um só nacionalismo. Portugal, sempre original, tem dois — e nenhum deles funciona como devia. De um lado, o nacionalismo político, frágil como um castelo de cartas molhadas, tímido, anémico, permanentemente à espera que alguém lhe dê vitaminas democráticas. Do outro, o nacionalismo futebolístico, hipertrofiado, barulhento, inflamado, sempre pronto para morrer pela pátria — desde que a pátria tenha um emblema bordado no peito e venda cachecóis à porta do estádio.


Um é um gato sonolento. O outro é um pitbull com megafone. E o país vive entre estes dois extremos, sem conseguir que nenhum deles se transforme em cidadania adulta.

 

O país onde o patriotismo só funciona com chuteiras


No futebol, o português é exigente, feroz, meticuloso. Quer transparência, planeamento, competência, responsabilidade. É um fiscalizador nato, um auditor de bancada, um ministro das Finanças do balneário.
Na política, porém, o mesmo cidadão transforma-se num adepto de sofá: “logo se vê”, “não vale a pena”, “eu cá não me meto nisso”.


É o equivalente democrático a entrar em campo sem chuteiras, sem bola e sem vontade — mas convencido de que ainda assim merece levantar a taça.


O estádio como pátria substituta


O estádio é o único lugar onde o português se sente parte de algo maior. Ali há cânticos, há união, há identidade — tudo aquilo que a vida pública não consegue inspirar.
Mas no dia seguinte, quando chega a hora de ser cidadão, o mesmo povo que exige VAR para um foradejogo de três centímetros aceita decisões políticas de três quilómetros de absurdo sem pestanejar.
Não é falta de paixão. É falta de treino. E talvez falta de coragem.


O confronto direto: nacionalismo político vs. nacionalismo futebolístico


O nacionalismo político — vive de joelhos, pede desculpa por existir, tem medo de levantar a voz, e quando tenta ser firme tropeça na própria retórica.


O nacionalismo futebolístico — grita, exige, protesta, faz contas, analisa orçamentos, conhece o nome do fisioterapeuta suplente e do primo do roupeiro.
Um não se compromete. O outro compromete-se demais — mas com o clube, nunca com o país.


O resultado é um país onde a energia patriótica está toda concentrada no sítio errado: a pátria das quatro linhas substituiu a pátria das quatro paredes da República.


A sociedade que joga sempre em contra-ataque


Enquanto gritamos “golo” no estádio, sofremos golos sucessivos na vida real:


serviços públicos a desfazer-se
decisões políticas sem escrutínio
desigualdades que se arrastam
expectativas que encolhem


E ninguém pede cartão vermelho. Ninguém exige substituições. Ninguém reclama do treinador.
Afinal, “não vale a pena”.


A derrota por falta de comparência


Se continuarmos assim, a derrota será por goleada — não por falta de talento, mas por falta de comparência.
Ser cidadão não é ser adepto. Ser cidadão é querer que as escolhas individuais tenham impacto positivo na sociedade, e não apenas no resultado da jornada.


A militância cega custa caro. A indiferença custa ainda mais.


Enquanto tratarmos a democracia como um campeonato secundário e o futebol como a verdadeira pátria emocional, continuaremos a perder terreno, ambição e futuro.


“O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é serem governados por quem se interessa.” — Platão

Otávio Ferreira