O SILÊNCIO DO OSSO DA BALEIA: A PRIMAVERA QUE NUNCA CHEGOU

Há lugares que guardamos na memória como postais de luz, até que a história os reclama com sombras que o tempo não consegue apagar. Esta semana, com o regresso do sol a aquecer- nos o corpo e a mente, decidi voltar a um local onde não pisava há mais de trinta anos: a Praia do Osso da Baleia.
Mas o que deveria ser um passeio de contemplação tornou-se um exercício doloroso de memória.
A brisa do Atlântico traz consigo os ecos da madrugada de 1 para 2 de março de 1987. Para muitos, o caso do "Mata-Sete" é um episódio sombrio de um Portugal de outros tempos; para mim, é o rosto da Maria do Céu, minha companheira de infância e liceu, e a gargalhada bem disposta da Isabel, que partilhou comigo as mesas da mesma turma do liceu D. Duarte. Estávamos no limiar da Primavera, com a idade em flor, e elas tinham apenas vinte anos e todo um mundo por descobrir. Naquele dia, a força do destino fez com que eu não estivesse em Portugal. Poderia ter sido eu, entre sorrisos e brindes de aniversário, a caminhar em direção ao areal naquela noite fatídica.
Vítor Jorge, o homem por trás da tragédia, não foi apenas um carrasco; foi o resultado de uma engrenagem partida. Com uma infância marcada por traumas profundos e uma saúde mental visivelmente fragilizada, transformou-se no executor de um plano terrível que dizimou a sua própria família. A esposa, a filha, e quem mais se atravessou no seu percurso, entre o pinhal e a costa.
Ouvir o relato recente deste caso num podcast da Dra. Júlia Pinheiro é um murro no estômago. Recorda-nos que o mal, muitas vezes, não nasce do nada, é cultivado no silêncio de traumas não tratados, em mentes que colapsam sob o peso de histórias de vida atrozes. Ao falar de Vítor Jorge, não se trata de perdoar o imperdoável, mas de compreender que a saúde mental não é um luxo, é uma questão de sobrevivência coletiva. O sangue derramado nas mãos de quem padece de um abismo interior raramente se limpa, nem mesmo com o comportamento exemplar que ele manteve na prisão ou com o exílio que procurou mais tarde.
Vítor Jorge viveu décadas com o peso da sua consciência até decidir pôr fim à própria vida. Mas será que viveu mesmo ou teria "morrido" também naquele dia?
As minhas amigas, a Céu e a Isabel, não tiveram essa escolha. E com elas, todas as outras vítimas cujos nomes a história não pode apagar.A sua própria família e aqueles jovens que apenas celebravam a vida. Embora não conhecesse todos pessoalmente, todos merecem o nosso respeito e a nossa memória. Ficaram eternizados nos seus vinte anos, no brilho de uma juventude que a areia do Osso da Baleia guardou para sempre.
Hoje, ao escrever estas linhas, não pretendo apenas relatar um crime. Pretendo prestar uma homenagem a todas aquelas vidas e gargalhadas interrompidas. Que a história de cada um deles sirva de alerta: os traumas da infância, se forem ignorados, podem tornar-se monstros na idade adulta. Cuidar da mente é, acima de tudo, um ato de respeito pela vida.
À Maria do Céu, à Isabel e a todas as vítimas daquela noite, que o sol que brilha hoje na vossa praia seja tão radioso como a lembrança que guardamos de vós. Que nunca sejam esquecidos.
Manuela Jones
