A GRANDE MÁQUINA DO MEDO

otavio3

SINDICALISMO À MODA ANTIGA NUM MUNDO QUE JÁ NÃO EXISTE

Há quem diga que os sindicatos são a última trincheira dos trabalhadores. Outros, mais atentos ao calendário, notam que essa trincheira ficou algures nos anos 70, ao lado de telefones de disco e cartazes a preto e branco. O mundo do trabalho mudou, mas certas estruturas parecem ter ficado presas num museu, daqueles que ninguém visita, mas que insistem em cobrar bilhete.

Hoje, muitos sindicatos vivem da instalação do medo como quem vive de uma renda antiga, não dá muito, mas também não exige esforço. A narrativa é sempre a mesma: “o patrão é o inimigo”, “a luta continua”, “a vitória está ao virar da esquina”. Só que a esquina já mudou de sítio há décadas, e a luta, essa, parece travada mais contra a realidade do que contra qualquer injustiça concreta.

O trabalhador moderno — esse ser que tenta equilibrar horários flexíveis, teletrabalho, plataformas digitais e a eterna promessa de produtividade — olha para certas greves como quem vê fogo de artifício em pleno dia: fazem barulho, piscam um pouco, mas não iluminam nada. Muitas paralisações são tão inócuas que nem os patrões reparam. E, quando reparam, é só para suspirar: “Outra vez?”

O caso da Opel da Azambuja continua a ser um exemplo citado por muitos analistas. A sucessão de greves, protestos e confrontos acabou por contribuir para o encerramento da fábrica, deixando centenas de trabalhadores sem emprego. A ironia? A luta que deveria protegê-los acabou por empurrá-los para o desemprego. Mas a máquina sindical seguiu em frente, porque, no fim do dia, a “turma” tem de ser mantida e as quotas têm de ser cobradas. A engrenagem não pode parar — mesmo que quem fique parado seja o trabalhador.

Há quem diga que resolver problemas não interessa. Afinal, se tudo estiver bem, para que servem os sindicatos? É uma pergunta desconfortável, e talvez por isso raramente seja feita. A existência de conflito permanente tornou-se, para alguns, a garantia de sobrevivência. A paz laboral, essa, seria um desastre — não para os trabalhadores, mas para quem vive da promessa eterna de uma batalha que nunca pode terminar.

O sindicalismo tem uma história importante e conquistas inegáveis. Mas quando a estratégia se transforma em ritual, e o ritual em espetáculo, perde-se o essencial: o trabalhador real, com problemas reais, num mundo real que já não tem nada a ver com o de 1974. Hoje, muitos sindicatos parecem mais empenhados em manter viva a chama da retórica do que em acender a luz da solução.

E assim seguimos: com greves que não mudam nada, discursos que não convencem ninguém e estruturas que se alimentam da própria existência. O trabalhador, esse, continua à espera de que alguém o represente — não no teatro da luta, mas na prática da vida.

Talvez um dia o sindicalismo se reinvente. Até lá, continuaremos a assistir ao mesmo espetáculo: muito megafone, pouca mudança. E, claro, quotas sempre em dia.

“Numa época de engano universal, dizer a verdade é um ato revolucionário.”

George Orwell

Otávio Ferreira