O «Observador» e o «Conimbricense»


Quando o periódico o «Observador» se começou a publicar em Coimbra no dia 16 de novembro de 1847, depois de terminada a guerra civil, foi seu primeiro editor o bacharel José Maria Dias Vieira, a que se seguiu o bacharel José de Morais Pinto de Almeida.
Nesse periódico foi defendida com toda a energia a causa da liberdade, e combatidos com todo o desassombro os despotismos do governo cabralista, suas autoridades e satélites.
Os facínoras da província da Beira sofreram do mesmo periódico uma guerra sem tréguas, e que ficou memorável.
No fim do ano de 1853 e principio de 1854 tinham-se tornado cada vez mais espantosos os crimes dos sicários do concelho de Lavos, e à frente deles o célebre Joaquim Gonçalves Curado, mais conhecido por Joaquim da Marinha, que havia sido administrador daquele concelho.
Achavam, porém, os sicários uma fortíssima resistência por parte desse periódico e do honrado governador civil do distrito de Coimbra, o sr. conselheiro António Luís de Sousa Henriques Seco. Ainda assim, como não há malvado que não tenha quem o proteja, Joaquim da Marinha tinha um grande protetor no seu compadre Frutuoso José da Silva, que era o proprietário mais abastado que então havia em Coimbra; e Frutuoso José da Silva era amigo íntimo do bacharel José de Morais Pinto de Almeida, editor do «Observador».
O mesmo José de Morais era nessa época deputado e achava-se em Lisboa; e por influência e instâncias de Frutuoso José da Silva, à proporção que do periódico partia a guerra cada vez mais audaciosa contra os sicários de Lavos, assim ele ia de Lisboa manifestando nas suas cartas a má vontade com que via essa guerra.
Das manifestações de desgosto teve José de Morais o atrevimento de passar às ameaças positivas. No meado do mês de janeiro de 1854 dirige ele uma carta a um nosso amigo, para que no-la mostrasse, em que declarava terminantemente que, se o «Observador» continuasse a atacar a Joaquim da Marinha, faria imediatamente cessar a sua publicação!
Imagine-se a indignação que de nós se apoderou, vendo que os sicários da província, e especialmente naquele caso os de Lavos, queriam amordaçar o periódico!
De modo que o bacharel José de Morais, que nem uma única palavra escrevia como redator ou colaborador do periódico, pretendia servir-se da circunstância de ser o editor dele para obstar à guerra feita aos assassinos de Lavos, satisfazendo assim ao seu amigo Frutuoso José da Silva, para este também satisfazer ao seu compadre Joaquim da Marinha!
Nesta grave situação dirigimo-nos apressadamente ao governo civil, e mostrámos a carta ao nosso amigo o sr. conselheiro António Luís de Sousa Henriques Seco.
O assombro do sr. Henriques Seco foi igual ao nosso; e em ato contínuo ali combinámos e resolvemos inutilizar o trama dos sicários e dos seus protetores, mudando imediatamente o título do periódico e passando nós a ser o editor responsável dele.
No próprio gabinete do sr. Henriques Seco fizemos, nessa conformidade, o necessário requerimento, o qual ele, como governador civil, ali mesmo despachou.
Dirigimo-nos em seguida ao juiz de direito, Manuel Francisco Pereira de Sousa, e ao delegado do procurador régio, Augusto de Abreu Castelo Branco, e em breve estava feita a nova habilitação.
Por esta forma, sem interrupção alguma, saía o periódico no dia 24 de janeiro de 1854 com o seguinte título:
«O CONIMBRICENSE»
JORNAL POLÍTICO, INSTRUTIVO E COMERCIAL
Responsável ‒ Joaquim Martins de Carvalho
Foi um golpe profundo dado nos sicários e seus protetores! Supunham que nos amordaçavam, mas acharam-se completamente enganados.
O periódico, com o novo título de «Conimbricense», continuou cada vez mais enérgico contra os facínoras e os mais criminosos desta cidade e distrito; e os serviços por ele prestados à ordem pública podem, em parte, ser avaliados em todo este livro."
(Capítulo XXXIX de "Os Assassinos da Beira", Coimbra, 1890)
Joaquim Martins de Carvalho:
DE «O OBSERVADOR» AO «O CONIMBRICENSE»
Mário Torres
