ÁRVORES CORTADAS - NOVA TEORIA BOTÂNICA

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A mais recente investigação do nosso "Observatório de Asfixia Urbana" revela que o plano para purgar o oxigénio da Avenida Elísio de Moura conta com um ingrediente secreto e requintado, que se tornou o silêncio ensurdecedor da Academia.

Enquanto 47 pinheiros-mansos se preparam para o corredor da morte, acusados pelo tribunal do betão de terem "raízes rebeldes" e "problemas de postura" (o tal desequilíbrio biomecânico). Apesar de terem resistido a estas últimas tempestades - esta nota é importante.

Enquanto isto acontece, Coimbra assiste a um fenómeno biológico ainda mais raro do que um pinheiro que não levanta o passeio: a mutação da voz da Professora Helena Freitas. Tratando-se de um enorme Mistério da Bióloga que Encolheu a Voz.

Antigamente, Helena Freitas era o terror das motosserras municipais. Bastava um tronco ser olhado de lado por um empreiteiro para que a ilustre bióloga catedrática da Universidade de Coimbra surgisse em defesa da fotossíntese, munida de argumentos científicos e de uma indignação que fazia tremer os lancis. Mas, pelos vistos, a ciência evoluiu.

Dizem as más línguas (certamente com falta de oxigénio) que o silêncio da Professora tem, alegadamente, uma explicação puramente ecológica, qualquer coisa com a “Simbiose Política”. Após o apoio público à candidatura de Ana Abrunhosa, parece que os pulmões da cidade passaram a ser uma questão secundária face à harmonia do executivo.

Estamos a falar de uma certa “camuflagem académica”. Onde a outrora voz crítica, outrora tão potente, terá sido transplantada para um local incerto, possivelmente um subsolo com pavimento antigo, onde o "colete de forças" do apoio político impede o desenvolvimento das cordas vocais.

Muitas pessoas levantam a questão da “Nova Teoria Botânica”. Talvez a Professora tenha descoberto que o oxigénio da Elísio de Moura é de qualidade inferior ao oxigénio produzido nos gabinetes municipais.

O relatório técnico da UC, instituição onde a Professora ensina a importância das árvores, exceto talvez destas 47. Parece claro: que as árvores têm "incompatibilidade estrutural". É o equivalente botânico a dizer que o divórcio entre o pinheiro e a avenida é por "diferenças irreconciliáveis". O pavimento antigo, enterrado como um pecado do passado, serve de desculpa perfeita para que a foice passe sem que se ouça um pio das elites científicas que dantes faziam barricadas de clorofila.

Enquanto Miguel Dias, do ClimAção, dá a extrema-unção aos pinheiros com a resignação de quem já aceitou o destino asfáltico, a possível solução de se alargar o separador da avenida, ou o transplante das árvores fica escondido numa gaveta burocrática da Câmara de Coimbra.

Entretanto os habitantes de Coimbra preparam-se para a nova era. Uma era onde a única coisa que cresce de forma desordenada não são as raízes, mas sim a conveniência de quem, antes de chegar ao poder, achava que as árvores eram sagradas e agora as vê apenas como obstáculos ao progresso liso e cinzento.

Resta-nos esperar que a requalificação traga espécies "menos agressivas". Provavelmente arbustos ou árvores de plástico, possivelmente até hologramas de carvalhos, que não ocupam espaço, não partem passeios e, acima de tudo, não exigem que os biólogos catedráticos tenham de escolher entre a ciência e a amizade política.

A amizade política estará acima de qualquer boa prática como o aumento de Oxigénio em Coimbra?

JAG
08-05-2026