IMPOSTOS EM DALLAS E O CURRÍCULO DO FACILITADOR EM TRIBUNAL

É um facto indesmentível que os cidadãos de Coimbra, e talvez não só, acabam por não saber como acabam as histórias lançadas pela comunicação social. Mas O Ponney não larga os velhos mistérios da nossa Lusa Atenas. Ora para compreender as engrenagens da "Atenas da Tração Traseira", o leitor do nosso jornal O Ponney precisa de se sentar na primeira fila do Tribunal de Coimbra.
É ali que, neste mês de Junho de 2026, se desenrola o mais refinado espetáculo de ilusionismo burocrático e diplomacia fiscal transatlântica do Concelho. É aí que o mediático consultor José Manuel Diogo, ex-curador da Casa da Cidadania da Língua e timoneiro da polémica APBRA (aquela associação que ocupou a Casa da Escrita com a bênção financeira do município), está a ser formalmente julgado por falsificação de documento e falsas declarações.
A acusação do Ministério Público é uma obra-prima da ficção curricular, o dito senhor terá forjado campanhas e cargos numa empresa dos EUA que nunca existiram, tudo para inflacionar o currículo da candidatura da empresária israelo-americana Nirit Harel. Com o objetivo de garantir que ela limpava o concurso público de 2022 lançado pela Câmara Municipal de Coimbra. Na altura a CMC era liderada por José Manuel Silva.
Na barra do tribunal, o arguido remeteu-se ao silêncio. Já a empresária explicou que lhe pagou 20 mil euros para "vencer barreiras linguísticas" em Portugal. Uma tradução caríssima, com certeza! O golpe de misericórdia veio diretamente dos EUA, com um diretor financeiro americano a vir a Coimbra confirmar que o arguido nunca pertenceu aos seus órgãos sociais.
Para os conimbricenses que pagam taxas e mais taxinhas sempre a subir de preço e impostos até para respirar a névoa do Mondego, o contrato de Junho de 2022 entre a autarquia de José Manuel Silva e a empresa de Nirit Harel é um hino à criatividade fiscal. O serviço de captação de investimento estrangeiro foi adjudicado por 67.500 euros, com a maravilhosa nuance transcrita no documento: «Estes valores não incluem IVA, pois no estado do Texas, dos EUA, onde tenho a minha residência fiscal, não estou sujeita a IVA».
É uma maravilha, o dinheiro sai das contas de Coimbra, mas os impostos foram cavalgar para o rancho de Dallas - para ajudar Donal Trump - naturalmente.
O contrato tinha um prazo estrito de execução de seis meses, para acabar no final de 2022. Mas, como o tempo em Coimbra estica mais do que a borracha do metroBus, a autarquia só deu a obra como concluída em Janeiro de 2025. Pelo caminho, em Maio de 2024, o executivo ainda fez um ajuste direto extra de 20 mil euros à empresa Slideshow para fazer um vídeo para acompanhar o trabalho da empresária. Ficamos todos com uma ideia como é gerido o dinheiro público.
Resultados práticos detetados até hoje? Zero.
A própria autarquia passou anos a dizer à agência Lusa que estava "a analisar as peças recebidas". Devem, ainda estar a analisar o texto ao microscópio, pois até hoje, mudou o executivo e nada de apresentar resultado dessa “análise”.
A realidade é que ninguém viu um único investidor estrangeiro a fixar-se na Sofia. Mas a empresária gostou tanto do título que, no seu LinkedIn, continuou a intitular-se orgulhosamente como "Senior Advisor" da Câmara Municipal de Coimbra, muito depois de o contrato expirar. O que é muito interessante.
O enredo ganha contornos de telenovela dinástica quando olhamos para as apresentações originais da empresária à cidade. Quem esteve na primeira fila a abrir-lhe as portas foi José Manuel Diogo e o fundador da APBRA, João Gabriel Silva — ex-reitor da Universidade de Coimbra e, por mera coincidência biológica, irmão do então presidente da Câmara, José Manuel Silva. João Gabriel Silva saltou mais tarde para a liderança do Instituto Pedro Nunes (IPN), uma incubadora fortemente apoiada com dinheiros da autarquia.
Aí, a máquina acelerou. O IPN e uma misteriosa entidade chamada Impact Portugal (da qual não há registos públicos) anunciaram o "Coimbra Tech Challenge". O evento prometia trazer empresas internacionais "criteriosamente selecionadas" com viagens e alojamento VIP pagos para a estreia da "Baixinova" — a suposta primeira aldeia de inovação integrada do país.
Para aumentar o enredo da novela há ainda um "detalhe" cómico!
A marca "Baixinova" foi registada em nome individual pela própria Nirit Harel em Janeiro de 2025! A trapalhada foi tanta que a própria Câmara Municipal teve de entrar com uma oposição oficial no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) para travar a empresária que eles próprios tinham contratado.
O IPN, claro, remeteu-se ao mesmo silêncio que o arguido Diogo guarda em tribunal, adiando o evento sucessivamente para o "Outono".
Hoje, em Junho de 2026, com o caso entregue aos juízes e com a nova Presidente da Câmara, Ana Abrunhosa, a herdar este autêntico campo de minas político e financeiro, o mistério continua denso. Entre currículos de Silicon Valley, marcas registadas à socapa, dinheiros que voam para o IPN e impostos que fogem para o Texas, a única coisa que Coimbra captou mesmo foi uma valente dor de cabeça processual.
AF
26-06-2026
