FOGO NA MATA DE COIMBRA E PAPEL NA GAVETA

Como o calor está a entrar, convém perceber o que é que o Município de Coimbra está a fazer para prevenir os fogos. Alertamos que a situação anda arrastada, o fardamento está em fila de espera e o executivo (o anterior e o atual) prefere combater as chamas com despachos assinados em duplicado.
Por isso mesmo, decidimos desenterrar o nosso artigo publicado a 18 de Abril de 2025. Na altura, anunciámos em tom de choque que, segundo Alexandre Carvalho — Presidente do SinFAP, a resposta da autarquia foi digna de um sketch de comédia: “Para nosso espanto, foi-nos dito que o Município não tinha Sapadores Florestais, eram simplesmente cantoneiros e por isso estavam na secção do Ambiente.”
Movidos pela curiosidade jornalística, enviámos uma pergunta direta à Câmara Municipal no dia 14 de abril de 2025, perguntando - Quantos sapadores florestais existem, afinal, no vosso mapa de pessoal?
- A resposta? Bem, a burocracia municipal tem ritmos muito próprios, quase geológicos. A 12 de Junho de 2026, o serviço de Marketing da CMC continuava na sua especialidade olímpica, que é o de não confirmar, não refutar, e deixa pairar o mistério arrastado sobre a existência real destes profissionais no Concelho.
Para que os nossos leitores não fiquem baralhados entre a universidade e a floresta, convém fazer a distinção. Um sapador florestal é um trabalhador altamente especializado que defende as nossas matas, previne e combate incêndios. Já um cantoneiro é quem limpa ruas, estradas e jardins urbanos. Confundir os dois é o equivalente a mandar um estudante de Filosofia gerir as finanças da Queima das Fitas.
No papel tudo queima, mas no terreno o resultado é ligeiramente diferente. A surpresa de Alexandre Carvalho começou muito antes. Em declarações a O Ponney, o dirigente sindical recordou: «Reuni duas vezes com o Presidente do Município [na altura José Manuel Silva] e os seus colaboradores. Na primeira reunião, a 8 de Novembro de 2024, expusemos a exigência legal de integrar estes trabalhadores na Carreira Profissional de Sapadores Florestais, ao abrigo do Decreto-Lei 86/2019. O Sr. Presidente disse que era legítimo e que ia dar seguimento.»
Avançamos no tempo e hoje, em 2026, a CMC lá parece admitir a custo que tem 9 sapadores nos quadros, embora assuma publicamente que precisava de pelo menos 10. Contas difíceis de somar para quem gere um concelho inteiro.
Como O Ponney foi o único órgão de comunicação social a acompanhar a greve de perto, testemunhámos em primeira mão a visita do ex-presidente José Manuel Silva aos grevistas, onde se prometeu mundos, fundos e reuniões. Fomos tentar saber o que saiu desse encontro de mentes entre os sapadores (que teimam em não ser cantoneiros) e o executivo.
Alexandre Carvalho foi taxativo: «O SinFAP e os trabalhadores reuniram-se a 21 de Maio — ironicamente o Dia Nacional dos Sapadores Florestais. Porém, de lá não veio nada que já não soubéssemos. O presidente não arrisca um único passo sem o aval dos seus diretores de departamento.»
Cansados de esperar que a máquina burocrática ganhe vida, o sindicato já ativou o plano judicial e o caso vai mesmo para tribunal, para que a jurisprudência force o cumprimento do raio do Decreto-Lei nº 86/2019. O SinFAP inclusive formalizou as exigências junto do vereador e lançou um novo Programa de Valorização Salarial 2026-2030 para ver se atrai mais gente disposta a limpar mato sem o estatuto correto.
Enquanto isso, no terreno, o balanço é uma anedota de mau gosto. Foi dito que havia um concurso para fardamento e formações a decorrer, muito focado nas candidaturas de Equipamento de Proteção Individual do ICNF.
O Suplemento de Penosidade e Insalubridade (SPI)?
Está "pendente da assinatura do Diretor de Departamento". Os averbamentos das cartas de condução para os pesados?
O Município aguarda pelo IMT, porque Coimbra não se move sem um papel carimbado e assinado com caneta azul. A autarquia prefere investir noutras frentes de artilharia pesada.
Recentemente, elevaram a Companhia de Bombeiros Sapadores a Batalhão e o executivo acabou de aprovar a aquisição por ajuste direto de sete novas viaturas por quase um milhão de euros.
Ou seja, há dinheiro para camiões novos brilhantes, mas o pessoal para limpar o mato antes de o fogo começar continua em lista de espera burocrática. Enquanto os papéis circulam de secretária em secretária, a organização da equipa mete medo, onde apenas 4 elementos estão no ativo.
Para dar uma ajuda, a Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra (CIM-RC) tenta remendar o buraco com uma brigada partilhada, mas com um quarteto fantástico municipal destes, o leitor pode antever o sucesso do recém-aprovado Plano Operacional Municipal (POM) de Defesa da Floresta.
Olhando para o panorama da prevenção de incêndios, fica a nítida impressão de que o executivo de Coimbra prefere combater o fogo com resmas de papel e dossiers do que com sapadores de pleno direito no terreno.
Resta saber se o papel arde mais depressa do que a paciência dos munícipes perante eventuais incêndios na região de Coimbra.
Será que depois temos que ouvir que os fogos não estavam previstos?
