O FANTASMA DA EMPRESA MUNICIPAL NOS SMTUC

Os Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC) registaram uma subida astronómica de 1.716% no número de viagens suprimidas por falta de motoristas no primeiro trimestre de 2026, face ao período homólogo de 2025.
Este colapso operacional resultou em 635 carreiras totalmente eliminadas e na demissão de 13 motoristas em apenas três meses. Como resposta imediata, o executivo da Câmara de Coimbra aprovou para o mês de Agosto a supressão de mais de 100 viagens diárias em 20 linhas diferentes, agravando uma perda crónica que já atinge os 752 mil passageiros.
Para quem tenta apanhar um autocarro em Coimbra (Concelho), a esperança bíblica deu lugar à bruxaria negra. Coimbra é, oficialmente, a primeira cidade do mundo a adotar a frota fantasma de emissão zero, onde o utente chega à paragem, olha para o letreiro digital e a carreira passa apenas em plano astral.
A gerência resolve a falta de motoristas com a "otimização pela tesourada". Se não há autocarro, o utente não se atrasa; vai a pé e faz bem à saúde - ou morre de calor sem sombra de árvores ou fica mais rijo. É a caminhada comunitária forçada.
No entanto, esta razia de Agosto, talvez, esconda um propósito político mais profundo, que une de forma umbilical o atual executivo de Ana Abrunhosa e o anterior executivo liderado pelo ex-presidente e atual vereador da oposição, José Manuel Silva, pela transformação dos SMTUC em Empresa Municipal.
Lembramos o que escrevemos nas páginas de O Ponney, publicado a 7 de Junho de 2024, onde considerámos os prós e contras desta medida defendida por ambos os quadrantes. Há que limpar o terreno e habituar o utente ao deserto, para que o futuro rombo financeiro da empresa não choque ninguém.
Os defensores da empresarialização, como Silva e Abrunhosa, apontam os prós económicos: maior contenção nas despesas, agilidade administrativa e decisões mais céleres (mesmo que sejam negativas para Coimbra).
A empresa privada ou municipal, por princípio, não pode dar prejuízo, o que teoricamente obrigaria a uma gestão mais escorreita - mesmo que esteja de costas viradas para a necessidade dos utentes.
A contrapartida, todavia, deita por terra o conceito de serviço público e explica os cortes preventivos que assistimos hoje. O primeiro grande revés é a eliminação quase certa de 19 linhas suburbanas por falta de viabilidade económica: as linhas 9, 13P, 30P, 30R, 41, 42M, 42T, 42B, 45, 51, 52, 52M, 52P, 52T, 53T, 201, 202, 203 e 204 correm o risco real de desaparecer, isolando ainda mais as localidades com menor densidade populacional do Concelho. Da mesma forma, o Transporte Especial para cidadãos com mobilidade reduzida — que opera com 90% de prejuízo e não recebe apoios do Estado — fica sob ameaça direta de extinção numa lógica de lucro puro.
O verdadeiro buraco financeiro, contudo, já está a chegar com a entrada em funcionamento do metroBus. O novo sistema está a canibalizar as 23 linhas mais rentáveis dos SMTUC (incluindo as linhas 5, 6, 7, 10, 16, 19, 27, 29, 30, 35 e 36, com as suas respetivas variantes), provocando um rombo imediato de cerca de 75% nas receitas operacionais.
Transformar os SMTUC numa empresa nos moldes das Águas de Coimbra significa entregar o destino da mobilidade a uma estrutura onde a Câmara terá uma capacidade de decisão reduzida (demasiado), tal como acontece na fatura da água, que aumenta ciclicamente à revelia dos munícipes e afugenta a fixação de população.
O Ponney recorda que este ensaio já correu mal em Aveiro, onde a criação dos Transportes Urbanos de Aveiro (TUA) abalou gravemente a qualidade do serviço público até aos dias de hoje. Em sentido inverso, a vizinha Câmara da Figueira da Foz caminha para municipalizar os seus transportes, rejeitando a receita corporativa que Coimbra quer aplicar.
Enquanto os políticos locais ensaiam o modelo de negócio, resta ao cidadão tirar fotografias sem flash aos autocarros de agosto. A probabilidade maior é ser um OVNI de passagem pela Praça 8 de Maio.
LCM
24-07-2026
