AS PORTAS CONTINUAM FECHADAS DA UC

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Um relatório recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre o financiamento do ensino superior em Portugal recomenda uma reforma profunda no modelo de alocação de verbas públicas às instituições, exigindo critérios assentes na eficiência, transparência e equidade. O documento sublinha que, perante as projeções demográficas que apontam para uma quebra acentuada na população jovem tradicional — com o INE a prever uma contração de 13,5% na faixa etária entre os 20 e os 24 anos —, as Instituições de Ensino Superior (IES) são obrigadas a alargar a sua base de recrutamento para públicos mais velhos e apostar na formação ao longo da vida.


Embora Portugal tenha registado um aumento na participação da faixa etária entre os 30 e os 34 anos nas salas de aula — atingindo os 43,2% em anos recentes —, a OCDE alerta que este crescimento é territorialmente desigual, concentrando-se fortemente no Norte e deixando Alentejo, Algarve e Açores em risco de isolamento social e financeiro. O quadro geral agrava-se com o índice de envelhecimento nacional medido pelo INE, onde Portugal regista atualmente 185,6 idosos por cada 100 jovens, aproximando-se velozmente do dobro da população sénior face à base geracional do país.


É neste cenário de colapso demográfico galopante que o tradicional conservadorismo de Coimbra brilha com intensidade bizarra. A Universidade de Coimbra, a mais antiga do país, continua agarrada ao fetiche do estudante saído do ensino secundário, ignorando olimpicamente que a matéria-prima dos seus caloiros está em vias de extinção. Se a UC quer sobreviver ao século XXI sem transformar as suas faculdades em museus de cadeiras vazias, terá de abrir as portas da UC aos mais velhos.


Imaginemos o impacto revolucionário na Praxis, em vez de rapar o cabelo a jovens assustados, os veteranos da AAC passavam a fiscalizar se o reumatismo dos novos caloiros de 65 anos aguenta a subida das Escadas Monumentais. O tradicional "traçar da capa" seria substituído pelo "ajustar da manta de lã" nas esplanadas e as latadas passariam a ter patrocínio oficial de marcas de próteses dentárias e pacotes de canja. A "Queima das Fitas" ganharia um significado literal de “Queima de Caixas de Medicamentos”. Se a UC tem o orgulho de ser a primeira universidade do mundo lusófono, devia ter a decência de ser a primeira a perceber que os seus futuros alunos já têm direito ao passe social sénior.


Fora do circuito académico, a macrocefalia demográfica continua a asfixiar o país, concentrando o excesso populacional nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto enquanto o interior e as capitais de distrito envelhecem ao abandono. Esta distorção torna discussões partidárias sobre sustentabilidade económica ou ambiental completamente redundantes, pois sem massa humana ativa, não há ecologia nem finanças que salvem o território.


Resta aos partidos políticos saírem dos discursos “mais-do-mesmo” das agendas europeias e assumirem medidas realistas e com claro conhecimento do país que representam. É imperativo que os programas eleitorais incluam mecanismos complementares e autónomos de financiamento para as IES localizadas em regiões sob forte contração demográfica. Garantir condições de sustento, saúde e saber para que os mais idosos mantenham uma vida ativa nas universidades não é um ato de caridade; é a única forma de salvar o interior e conferir alguma credibilidade à própria sobrevivência da democracia portuguesa.


LMC
24-07-2026