NOVO INFANTÁRIO NA PRAÇA 8 DE MAIO

A Câmara Municipal de Coimbra aprovou (já explicamos porque pode ser mais-ou-menos) na sua última reunião executiva um protocolo de colaboração e apoio financeiro no valor de 15 mil euros à associação Maré Dialética para a implementação do projeto “Curadoria do Brincar – Arte, Bem-Estar e Intervenção Comunitária”.
A proposta acabou revogada, depois de decidida, pelo próprio executivo escassas duas horas após a votação inicial, após os serviços detetarem a necessidade urgente de reanalisar a fundamentação e os pareceres técnicos do processo.
A aprovação inicial contou com os votos favoráveis da maioria socialista e o voto contra da coligação Juntos Somos Coimbra, que classificou a proposta como "insuficientemente fundamentada". A oposição apontou o dedo ao facto de a associação ter sido constituída formalmente há apenas três meses, em Abril de 2026, não apresentando qualquer histórico curricular ou metas quantificáveis, além de ser liderada por um conhecido apoiante político do PS.
Diz a lenda académica que um caloiro em Coimbra precisa de penar pelo menos um ano letivo para ver o seu estatuto reconhecido na hierarquia da Praxis. Já nos Paços do Concelho, em plena Praça 8 de Maio, a meritocracia funciona ao ritmo de Fórmula 1. Com o cordão umbilical por cortar, a dita agremiação já se preparava para embolsar uma simpática verba pública. A maternidade desta jovem instituição fica na Rua Simões de Castro, 173, no mesmíssimo endereço físico do Atelier A Fábrica.
O Ponney recorda que foi neste exato espaço que a coligação "Avançar Coimbra" montou o seu quartel-general durante a campanha eleitoral de Outubro de 2025. Debateram-se ali as Repúblicas e o futuro da Baixa, com a candidata Ana Abrunhosa, presumivelmente com o aluguer pago em promessas de futura intervenção social comunitária. Cedem-se as salas na campanha, cria-se a associação na primavera, aprova-se o cheque no verão. Uma bonita lição de empreendedorismo dialético e de "Curadoria do Pagar o Favor".
A bancada do PSD apressou-se a gritar contra o favoritismo, mas a oposição sofre de uma óbvia falta de espelho. Esqueceram-se, convenientemente, de quando estavam no poder com o anterior presidente, José Manuel Silva, e não viram problema nenhum em ceder património municipal para a APBRA (Associação Portugal Brasil 200 Anos), que tinha como fundador e Presidente da Mesa da Assembleia Geral o ex-reitor João Gabriel Silva — que por mera coincidência genética é irmão do então Presidente da Câmara e atual vereador da oposição.
O associativismo familiar em Coimbra só choca dependendo da cor política do partido apoiante.
O clímax durou apenas duas horas. Perante o espectro do escândalo público, os serviços camarários operaram um milagre burocrático e revogaram o apoio à pressa. O brinquedo queimou as mãos e o executivo largou-o a correr, devolvendo o projeto à gaveta para nova avaliação. Brincaram ao associativismo, brincaram ao escrutínio, mas quem continua a pagar a conta da bilheteira deste teatro somos todos nós. Até parece que estão a transformar a Câmara de Coimbra num infantário onde andam a brincar com o dinheiro público. Parece...
LMC
24-07-2026
