O “CÉREBRO” QUE NUNCA DORME

Já imaginou uma máquina mais inteligente do que qualquer cientista ou génio na História? Antes de falarmos sobre isso é importante esclarecer que aquilo a que chamamos “inteligência artificial” não se trata, na realidade, de inteligência no sentido humano.
A Inteligência Humana é simbolicamente acumulativa e criativa, já a “inteligência” artificial é repetitiva e reflete como imagem em espelho. Não existe consciência, intenção, nem compreensão real por parte das máquinas, existe apenas lógica matemática, modelos estatísticos e bases de dados gigantes que permitem reconhecer padrões e produzir respostas com base em probabilidades.
A “Inteligência” Artifical não “pensa”, processa, não “decide” como um ser humano. Calcula a opção estatisticamente mais adequada de acordo com os dados que recebeu e com os objetivos que lhe foram programados.
O primeiro grande marco mediático da IA moderna foi o Deep Blue, sistema que derrotou o campeão mundial de xadrez Kasparov em 1997. O feito não resultou de criatividade ou intuição. O sistema analisava milhões de posições por segundo e cruzava-as com bases de dados gigantescas de jogadas feitas por seres humanos possíveis. Era pura capacidade de cálculo.
Desde então, as bases de dados tornaram-se muito maiores. Os modelos atuais são treinados com volumes massivos de texto, imagem, som e código. Quanto mais dados, maior a capacidade de prever padrões. O que parece criatividade é, na realidade, recombinação estatística altamente sofisticada.
Mesmo partindo apenas de lógica e bases de dados é possível imaginar um cenário de SuperInteligência. Este processo tem por base a capacidade do programa analisar o seu próprio código, testar melhorias e implementar autonomamente versões mais eficientes. Não porque “decidiu”, mas porque foi programado com esse propósito, cada versão cria uma versão ligeiramente melhor. Não se trata de consciência, mas sim de otimização automática.
Se este ciclo de melhoria se tornar exponencial, a capacidade do sistema poderá ultrapassar a humana. Não porque a máquina “ganhou vida”, mas porque a velocidade de processamento, a memória disponível e a capacidade de cruzar informação seriam incomparavelmente superiores às nossas, no entanto sem sentido crítico e subjugada ao programa codificado.
Importa, no entanto, sublinhar um ponto essencial: qualquer consequência negativa que possa surgir não terá origem numa vontade própria da máquina. As máquinas não têm intenções, desejos, emotividade ou ambições. Executam instruções. Se um sistema vier a causar dano, isto será sempre resultado direto das decisões humanas que orientaram a sua programação, dos objetivos que lhe foram definidos ou da negligência na sua supervisão. A responsabilidade permanece exclusivamente humana. Uma máquina faz apenas aquilo que é programada para fazer. Se os objetivos forem mal definidos, os resultados poderão ser problemáticos. O maior perigo está no ser humano não se conhecer a ele mesmo e ainda assim, está a tentar programar uma máquina para esta ter uma decisão idêntica ao humano.
Não por maldade, mas por falta de juízo moral. A máquina não distingue o certo do errado, o justo do injusto, o ético do prejudicial. Não possui valores, empatia ou intuição. Se um sistema produzir um resultado nocivo, não o faz por intenção negativa, mas porque não tem a capacidade de compreender o impacto humano das suas ações. Falta-lhe consciência. Falta-lhe aquilo que nos permite, enquanto humanos, questionar: “Devo fazer isto?” e não apenas “Consigo fazer isto?”. A máquina apenas executa, o ser humano é que deve julgar.
Na prática, já assistimos a efeitos visíveis da utilização da IA, inclusive no cibercrime, ferramentas automatizadas permitem criar esquemas de fraude mais convincentes, gerar mensagens falsas com aparência legítima e até acelerar ataques informáticos. Contudo, neste caso a tecnologia não passa de um instrumento pois quem pratica o crime é uma pessoa.
A verdadeira questão não é se as máquinas se tornarão perigosas, mas se os seus criadores saberão definir limites claros, objetivos responsáveis e mecanismos de controlo eficazes. A tecnologia amplia capacidades, tanto para o bem como para o mal, mas a direção que toma depende exclusivamente de quem a desenvolve e aplica.
Assim, quando falamos em SuperInteligência, não estamos a falar de uma entidade consciente que nos substitui. Estamos a falar de sistemas de cálculo extraordinariamente avançados, construídos por pessoas, alimentados por dados fornecidos por pessoas e orientados por metas definidas por pessoas.
A máquina poderá ser mais rápida, mais precisa e mais eficiente. Mas continuará a ser aquilo que sempre foi: uma extensão das escolhas humanas.
Iara Santos
06-03-2026
