ESTAMOS PERTO DE SERMOS “DEUSES”

A Quarta Revolução Industrial rompe barreiras entre o mundo digital, físico e biológico. Vivemos numa era em que quase tudo parece possível, carros completamente automáticos, supermercados sem trabalhadores, fábricas completamente automáticas, são vastas as possibilidades. Mas será que esta revolução vai pôr em causa a nossa sobrevivência?
Ao pensarmos nisso, surge automaticamente o receio de que esta nova tecnologia, nos venha retirar o salário e nos confronte com a nossa ignorância não assumida. No entanto, é importante refletir melhor sobre a questão. A Quarta Revolução Industrial centra-se sobretudo na automação de tarefas repetitivas e desgastantes, de maneira a dar mais liberdade ao ser humano.
Os trabalhos mais simples de substituir pela tecnologia são os que cumprem com uma regra (mais ou menos complexa), mas que está perfeitamente limitada. Motoristas, operadores de caixa, funcionários de call center, juízes, diagnósticos de médico, operadores de produção, entre outros, são profissões extremamente vulneráveis à automação.
Porém a automação não acaba com o sustento individual, mas sim transforma radicalmente a forma como trabalhamos. A tecnologia permite melhorar as condições de trabalho, aumentar a segurança e valorizar a capacidade humana em termos profissionais. Por exemplo na BMW, os robôs fazem a montagem pesada e o trabalhador supervisiona, ajuda e analisa máquinas. A tecnologia, tornou-se uma ferramenta de apoio, não um substituto.
O Ponney lembra que já foi usada uma política arrojada na Europa, baseada numa petição que defendeu a "renda básica de emergência" reuniu mais de 200.000 assinaturas, e pesquisas sugeriram um amplo apoio da opinião pública a esse programa pontual, em resposta ao confinamento provocado pelo Covid-19.
Levanta-se então uma questão: Este programa da Europa pode ser a solução para a sobrevivência do ser humano enquanto se prepara para um futuro onde a tecnologia tem uma maior abrangência?
Talvez exista esta possibilidade, se a sociedade for bem gerida, além disso é discutida a proposta de Renda Básica Universal (RBU), apresentada como a solução para garantir uma vida com dignidade a quem perde o emprego devido à automação, considerando que os desempregados devam ter formação que os capacitem a trabalhos mais exigentes intelectualmente. Estudos confirmam que a RBU dá flexibilidade aos desempregados para procurarem novas oportunidades, investirem em formação ou desenvolverem projetos próprios. E se o RBU for entregue com a condição de uma formação adequada à Quarta Revolução Industrial?
As máquinas não irão acabar com o trabalho, mas obrigar-nos a repensá-lo. O trabalho poderá deixar de ser o nosso meio de sobrevivência e passar a ser uma forma de crescimento e desenvolvimento tanto pessoal como a nível do país. É aí que entram as capacidades do ser humano.
O pensador português Agostinho da Silva lembrou-nos: « Porque nos faltou mestre de música, ou porque não encontramos piano à mão, vamos-nos entretendo a tocar coisas que não são da nossa partitura. Há então que fazer o esforço, individual ou colectivo, de achar o mestre e o piano que a partitura exige. »
O ser humano possui criatividade, pensamento crítico, empatia, imaginação, capacidade de adaptação e inteligência emocional, mas dificilmente são aproveitadas estas características dada a prioridade que é dada à sobrevivência. Somos capazes de inovar, criar arte, resolver problemas complexos, liderar, cooperar e sonhar. Muitas vezes limitamo-nos por medo ou por falta de oportunidades e acabamos por nos esquecer que temos potencial para muito mais. Dentro de cada pessoa existem talentos por descobrir e competências por desenvolver. As máquinas executam tarefas, nós atribuímos sentido e propósito ao que é feito. Afinal, foram os seres humanos que criaram as máquinas para nos permitirem o nosso auto-desenvolvimento.
O impacto da revolução depende dos governos, das empresas e sobretudo de cada um de nós que forma a sociedade. A tecnologia é criada para nos tornar uma espécie de “deuses”, não para voltarmos aos tempos antigos de escravidão e desigualdade extrema. Certamente será possível redefinir o significado de trabalhar. Em vez de algo exclusivamente sacrificante, poderá tornar-se uma atividade alinhada com as nossas capacidades, talentos e vocações, contribuindo para o crescimento individual e coletivo.
Iara Santos
20-02-2026
