SEI O QUE FIZESTE NAS ELEIÇÕES PASSADAS

Escrevo este artigo com carinho, sim — porque até os chicos espertos merecem afeto. Não muito, claro. Só o suficiente para não se sentirem sozinhos enquanto a CNE lhes bate à porta com aquele envelope formal que começa com “Notificado para se pronunciar…”. E escrevo também com compaixão, porque deve ser difícil acordar de manhã, abrir o computador e descobrir que aquilo que parecia uma simples publicação, uma inocente inauguração, ou um protocolo com fotografias sorridentes… afinal era publicidade institucional proibida. A vida tem destas ironias.
Há uma fauna muito particular que floresce sempre que o calendário eleitoral aquece: os chicos espertos da política. Acrobatas da moral pública, contorcionistas éticos, especialistas em dobrar normas como quem dobra guardanapos descartáveis. Para eles, a neutralidade é um conceito abstrato, a imparcialidade é uma metáfora, e a ética… bem, a ética é aquele quadro pendurado no corredor da autarquia que ninguém sabe quem escolheu.
E aqui entra a minha compaixão: Deve ser duro perceber que a autarquia não é um palco pessoal, nem um álbum de fotografias para treinar poses de outdoor. Deve custar aceitar que os recursos públicos não são brinquedos de campanha, nem cromos colecionáveis, nem o vosso buffet eleitoral. E deve ser desconfortável descobrir que os cidadãos — esses ingratos — não estavam distraídos. Estavam atentos. Despertos. E com memória mais longa do que vocês imaginaram.
Mas não se sintam mal. Todos nós erramos. Uns erram a preencher o IRS. Ainda há quem confunda viajar de comboio com viajar de automóvel próprio. Ou erram a publicar protocolos com fotografias sorridentes em plena proibição legal. A vida é assim: democrática, mas com sentido de humor.
E no meio deste teatro, paira sempre a figura quase mítica: o Ministro do Interior do MH — que não dorme, só descanso. E quando descanso, descanso com um olho aberto, como quem vigia para ver se algum chico esperto tenta transformar a autarquia numa máquina de propaganda digna de novela barata. É quase paternal, não é? Uma vigilância carinhosa.
Os cidadãos já viram a coreografia. Já conhecem o cheiro da propaganda mascarada de “informação útil”. E agora, com a serenidade de quem observa a maré, veem a CNE e o Tribunal Constitucional fazer aquilo que fazem melhor: lembrar que as regras existem.
Por isso, meus queridos prevaricadores das últimas eleições, deixo-vos um recado com ternura, firmeza e um sorriso: tomem juízo. A democracia não é o vosso brinquedo, e a Câmara Municipal não é o vosso palco privado. Quem não respeita regras não é líder — é apenas aprendiz de tiranete com tiques de vaidade.
Mas não desanimem. A vida dá sempre segundas oportunidades. E quem sabe? Talvez nas próximas eleições façam tudo certinho. Ou pelo menos… menos mal.
“A justiça tarda, mas não falha.” — expressão tradicional
E desta vez chegou com notificações formais e deliberações bem fundamentadas.
Otávio Ferreira
(Ministro do Interior do MH)
