OS DIAS DA RÁDIO

JO JONES102

 

Hoje, escolhi partilhar convosco, leitores do nosso Ponney, a minha reflexão sobre a importância da rádio, inspirada por um filme do Woody Allen que me fez viajar no tempo. Aquele filme trouxe-me de volta aos anos 70, à minha infância em Coimbra, onde a internet era apenas uma invenção dos filmes de ficção e a televisão um luxo reservado a poucos. Numa época em que a luz elétrica ainda não iluminava todas as casas, o velho transístor, muitas vezes alimentado a pilhas, era a nossa janela para o mundo.

Recordo com nostalgia os serões de invernos passados à volta da braseira a carvão, aquecidos por mantas tricotadas pelas mãos carinhosas das nossas mães e avós que posava - mos sobre os joelhos. Era nesse ambiente familiar que nos sentávamos, ansiosos por ouvir os discos pedidos e as emocionantes rádio novelas que faziam suspirar as raparigas sonhadoras. Lembro- me de uma chamada " simplesmente Maria". Eu, por meu lado, deliciava-me com os parodiantes de Lisboa, especialmente com as divertidas histórias do Patilhas e Ventoínha. Com o passar do tempo, descobri também o Oceano Pacífico, que é atualmente transmitido na Rádio Renascença, uma companhia fiel que ainda ecoa em algumas ondas radiofónicas. Hoje faleceu uma figura icónica da rádio a grande senhora a quem chamavam a "amiga Olga" a quem presto aqui a minha singela homenagem.

A minha tia era uma ouvinte fervorosa do terço ao final da tarde, um momento que, para mim, era de um enorme aborrecimento, mas que fazia parte do nosso quotidiano e da educação da época. A rádio era uma constante, mesmo quando as pilhas falhavam e precisavam de ser deixadas ao sol para "recarregar". A escassez de recursos fazia com que cada pequeno gesto, como aproveitar a luz do dia e o calor do sol, tivesse um significado profundo. Através do som da rádio, sentíamos que a vida pulsava ao nosso redor.

Na manhã do 25 de Abril, o pequeno transístor tornava-se uma extensão dos nossos corpos, amplificando os ecos da liberdade que se desenrolava nas ruas. Tinha apenas oito anos e, apesar da minha falta de compreensão sobre a magnitude dos acontecimentos, sentia a energia da mudança. A rádio tornava-se o nosso sonho, a ligação com a realidade, e os artistas da época eram como amigos que nos acompanhavam nas nossas vidas.

Com o passar dos anos, a tecnologia evoluiu e, com ela, a dinâmica familiar. As conversas à volta da braseira foram substituídas pelo silêncio ou pelas notificações dos telemóveis. As nossas mães já não troteiam as canções da época enquanto lavam a roupa no velho tanque de cimento ou nos fazem as refeições. Muitos dos nossos familiares já partiram. O rádio, foi um coração pulsante de cada casa, um amigo que nos fez sonhar informar e sentir vivos, foi relegado a um segundo plano, esquecido nas prateleiras. Hoje, nas maiorias das casas, o que se ouve é o silêncio, uma música diferente que, de certa forma, nos afasta uns dos outros.

Contudo, eu ainda vivo os dias da rádio. Quando viajo de carro, sintonizo a M 80, deixando-me envolver pelas melodias que me transportam para um tempo em que a vida era mais simples e até sintonizo a rádio Renascença e ouço rezar o terço, sem terço. Acompanhar os sucessos da época da minha juventude enquanto percorro as estradas é também uma maneira de reviver aquelas memórias nostálgicas. À noite, já na cama, sintonizo o Oceano Pacífico na Rádio Renascença e deixo-me embalar pelas suas ondas sonoras, enquanto leio ou escrevo. É um momento de tranquilidade, um regresso a um tempo em que as histórias contadas através da rádio preenchiam as nossas noites.

As vozes podem ter mudado, mas o sonho permanece. A rádio era mais do que um meio de comunicação; era um laço que unia as famílias, uma forma de partilhar emoções e histórias. É importante recordar e valorizar as memórias que a rádio nos trouxe. Ela foi, e ainda é, um símbolo de união e partilha, um testemunho do que fomos e do que podemos ser. Que possamos, ao menos em pensamento, voltar a sintonizar essa frequência de ligação e amor que nos uniu no passado. Que as novas gerações também possam descobrir a magia da rádio, essa arte de contar histórias e de criar laços que sempre nos acompanhou, mesmo nas noites mais frias de Dezembro.

M. Jones