TESTE DO ALGODÃO NA METRO MONDEGO

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O Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM), conhecido publicamente como Metro Mondego ou Metrobus, atravessa uma fase decisiva. Após sucessivos adiamentos, a entrada em operação comercial no troço suburbano entre Serpins (Lousã) e a Portagem (Coimbra), veio tarde, mas veio. Contudo, o percurso até aqui tem sido marcado por atrasos, revisões de calendário, derrapagens financeiras e alterações na administração, gerando crescente inquietação entre a população.

Atrasos acumulados e incidentes recentes

Inicialmente prevista para março de 2024 e posteriormente para junho do mesmo ano, a operação foi sucessivamente adiada. A linha do hospital, considerada estruturante para a mobilidade urbana em Coimbra, enfrentou dificuldades técnicas reconhecidas pela Infraestruturas de Portugal ainda em 2024.

Em janeiro de 2026, um deslizamento de terras obrigou ao encerramento de três estações na Lousã. Pouco depois, em fevereiro, problemas de segurança relacionados com aluimentos levaram à suspensão do troço entre Sobral de Ceira e Lousã. Estes episódios colocaram novamente no centro do debate a robustez técnica da infraestrutura e os mecanismos de prevenção de risco.

Um investimento superior a 327 milhões

Ao longo das últimas décadas, incluindo a fase anterior do projeto de metro ligeiro, o investimento público acumulado ultrapassou os 327 milhões de euros. O Orçamento do Estado para 2025 manteve verbas destinadas à consolidação e expansão do sistema.

A alteração do modelo inicialmente previsto, passando de metro ligeiro para um sistema de Bus Rapid Transit (BRT) com autocarros elétricos dedicados, continua a suscitar controvérsia. Embora especialistas reconheçam que sistemas BRT podem ser eficientes e sustentáveis, parte da população considera que a solução final ficou aquém das expectativas criadas durante anos.

O caso dos carris e a perceção de opacidade

Um dos episódios que mais contribuiu para a erosão da confiança pública foi o alegado desaparecimento de ferro proveniente dos carris da antiga Linha da Lousã. Apesar de denúncias e questionamentos públicos, não houve até ao momento uma clarificação amplamente detalhada que encerrasse definitivamente o tema. A ausência de informação consolidada alimentou perceções de opacidade num projeto já fragilizado por sucessivos contratempos.

Reestruturação administrativa em momento sensível

Em setembro de 2025, o Governo procedeu à substituição de dois vogais do Conselho de Administração da empresa pública Metro Mondego. Saíram Eduardo Barata e Teresa Jorge; entraram Ricardo Cândido e Cristina Agreira, ambos com ligações ao PSD. O presidente João Marrana manteve-se em funções.

A decisão foi tomada a poucos meses do arranque comercial previsto e gerou críticas por parte dos municípios da Lousã e de Miranda do Corvo, bem como do PS de Coimbra, que consideraram a mudança inoportuna e politicamente motivada por propaganda.

O Governo defendeu tratar-se de uma decisão legítima no exercício das suas competências.

Independentemente das leituras partidárias, a substituição em fase final de preparação operacional levantou dúvidas quanto à estabilidade da governação do projeto.

 

Perguntas que exigem resposta

Num momento em que o sistema se aproxima da sua plena entrada em funcionamento, persistem questões que refletem a insatisfação e preocupação de parte significativa da população:

  • Vai a recente reconfiguração do conselho de administração garantir estabilidade, ou poderá ocorrer nova substituição de responsáveis em função de ciclos políticos?
  • Estão efetivamente reunidas todas as condições técnicas e geológicas para evitar novos encerramentos ou suspensões durante 2026?
  • Que medidas concretas foram implementadas após os episódios de deslizamento e aluimento?
  • Existe um relatório financeiro atualizado, acessível ao público, que detalhe a aplicação dos mais de 327 milhões de euros investidos?
  • Está prevista alguma auditoria técnica e financeira independente ao projeto?
  • O modelo BRT foi objeto de avaliação comparativa transparente face à solução de metro ligeiro inicialmente anunciada?
  • Que mecanismos de fiscalização externa asseguram a boa gestão dos dinheiros públicos?
  • Que responsabilidades políticas são assumidas pelos sucessivos adiamentos desde 2017?
  • Como poderá ser restaurada a confiança dos cidadãos que sentiram que lhes foi prometido um sistema diferente do que acabou por ser implementado?

 

O Metro Mondego foi apresentado como um projeto transformador para a região Centro. Hoje, mais do que discutir modelos de transporte, está em causa a credibilidade institucional e a gestão responsável de recursos públicos.

A entrada em funcionamento pleno poderá marcar o início de uma nova etapa. Mas, para muitos cidadãos, o verdadeiro teste será outro: transparência, estabilidade e prestação de contas. Sem esses pilares, qualquer infraestrutura por moderna que seja circulará sempre sob o peso da desconfiança.

O Ponney continuará a acompanhar de forma rigorosa e independente todos os desenvolvimentos relacionados com o Sistema de Mobilidade do Mondego. Num projeto financiado com recursos públicos e com impacto direto na vida de milhares de cidadãos, a transparência, a prestação de contas e o escrutínio democrático não são opcionais são deveres. Estaremos atentos aos próximos passos, às decisões políticas, à execução técnica e à gestão financeira, dando voz à população e exigindo esclarecimentos sempre que se justifiquem.

 

Daniela Sousa, O Ponney

20-02-2026