O MOSTEIRO DE SANTA CLARA-A-NOVA.

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 O mosteiro de Santa Clara-a-Nova ocupa uma posição dominante, no alto da primeira colina a Sul do Rio Mondego, sobranceiro ao mosteiro novo dos padres franciscanos e ao casario que, para ambos os lados dele se estende, ao longo do sopé do chamado Monte da Esperança. O culto é assegurado pela Confraria da Rainha Santa Isabel.

A construção foi iniciada a 3 de Julho de 1649, embora já dois anos antes tivessem começado os preparativos para as obras, datando de 12 de Dezembro de 1647 o alvará de D. João IV que autorizou a mudança das instalações monásticas das clarissas, do seu arruinado cenóbio medieval, para o que pretendiam começar a construir.

Foi o monge beneditino, ao tempo ocupando o cargo de engenheiro mor do Reino e também professor da Universidade, frei João Turriano, quem traçou todo o plano, começando a construção propriamente dita o mestre vimaranense Domingos de Freitas.

O processo de edificação foi moroso e, só em 1677, é que as clarissas se mudaram para estas novas instalações, ficando acomodadas nas dependências habitacionais já levantadas, e o culto circunscrito a um salão, dado que a igreja ainda não estava pronta, o que só veio a acontecer em 1696, sendo sagrada a 26 de Junho desse ano, e o túmulo colocado mês seguinte.

A entrada no terreiro que antecede a fachada da igreja, na verdade o seu flanco esquerdo, é antecedido por um portal de gosto maneirista, que deixa de fora as antigas instalações das hospedarias, mas antes do gradeamento havia um muro alto.

Virada à cidade, foi levantada uma bela e grande estátua em calcário branco evocativa de D. Isabel de Aragão, a padroeira da cidade, trabalho do notável estatuário Álvaro Debrée.

A igreja tem de um lado a zona destinada aos visitantes, e do outro o corpo principal das habitações e dependências monásticas, uma mole imensa com 180 metros de comprimento, correspondentes a 80 celas. A arquitectura é sóbria, vincando a estrutura os torreões tão ao gosto dos palácios portugueses do século XVII. Para trás, estendia-se a cerca, hoje muito diminuída e ocupada até há pouco tempo por uma unidade militar.

As obras de construção da igreja foram levadas a cabo pelo arquitecto régio Mateus do Couto, ao tempo com várias outras obras a corer em Coimbra, por encargo do monarca D. Pedro II. Julgamos que, no essencial, respeitou a traça de frei João Turriano, mais não tendo feito que pequenas alterações, devendo se lhe, por exemplo, o traçado do portal principal já de gosto proto-barroco.

Outros grandes arquitectos e mestres-de-obras trabalharam na edificação do conjunto dos edifícios de Santa Clara, nomeadamente, o húngaro Carlos Mardel, Custódio Vieira, Manuel do Couto e o conimbricense Gaspar Ferreira. Ao primeiro, que chegou a Portugal em 1733, devem se os planos do claustro e da portaria. A quadra estava em construção, em 1737, dirigindo a obra o mestre conimbricense Gaspar Ferreira que, a partir de 1761, faria, igualmente, sob planos de Carlos Mardel, a nova entrada de aparato da zona habi-

tacional e de serviços da casa das clarissas.

O interior da igreja é amplo, só de uma nave coberta por uma abóbada de cartelas. A cabeceira é formada por uma só capela de grandes dimensões e num plano superior ao do chão do corpo. Nela, destaca se a estátua polícroma de Santa Isabel, da autoria do escultor Teixeira Lopes, e oferecida pela rainha D. Amélia, e o túmulo em prata e cristal, onde repousa o seu cadáver da rainha, que foi mandado fazer pelo bispo D. Afonso Castelo-Branco, em 1614. E esteve inicialmente no mosteiro primitivo.

É notável ainda a profusão das talhas barrocas do retábulo da época de D. Pedro II. As telas alusivas à Vida da Rainha Santa foram executadas por artistas de Lisboa, ou por algum italiano radicado na Corte, na primeira metade do século XVIII.

As paredes laterais estão completamente cobertas por um conjunto de retábulo de talhas douradas e policromadas, incluindo baixos relevos de um nível superior, que apresentam motivos franciscanos e da vida da padroeira da igreja. Foram projectados pelo arquitecto Mateus do Couto, e executados pelos entalhadores portuenses António Gomes e Domingos Nunes, em 1692.

Dos trabalhos de madeira, destacam se ainda o púlpito e a grade de pau preto, feitos pelos ensambladores António Azevedo Fernandes e Domingos Nunes, em 1704.

No lado do coro, junto aos ângulos das paredes laterais, encontram se dois túmulos góticos. O do lado esquerdo é o da InfantaD. Isabel, filha de D. Afonso IV, bela obra de tradição coimbrã, datada do século XIV seguramente da autoria do escultor de D. Isabel de Aragão, de Mestre Pêro. O do lado oposto é já do século XV, e destinava se à duquesa de Coimbra, mulher do regente D. Pedro, morto na Batalha de Alfarrobeira, em 1449. Foi, porém, uma sua filha que foi sepultada nele.

De muito maiores dimensões é o túmulo da Rainha Santa Isabel, executado pelo catalão ou aragonês Mestre Pêro, por volta de 1331, e que marcou um modelo que viria a ser típico de Coimbra; encontra se hoje exposto no coro baixo. Na tampa, tem a estátua jacente de D. Isabel, de nível fora do comum, como aliás também acontece com as estatuetas hagiográficas que cobrem as faces da arca.

No coro-baixo há um notável conjunto de obras, a maioria vindo do mosteiro primitivo, de que se destacam retábulos do ciclo maneirista com pinturas de excelente qualidade, muito provavelmente da autoria do pintos conimbricense Bernardo Manuel. Mas há altares já barrocos, um belíssimo orgão barroco, esculturas, uma delas da autoria de João de Ruão e colocada dentro de uma maquineta, etc.

No coro alto, estão expostas muitas das alfaias de prata do mosteiro e também outros objectos destinados ao culto, estatuária europeia e indo-portuguesa, paramentos, tapetes persas e de Arraiolos, estantes de altar japonesas do fim do século XVI, e um sem número de outros tesouros, parte já com nova e cuidada disposição museológica. Igualmente se pode ver o cadeiral, com setenta e oito cadeiras distribuídas por dois andares, datado da primeira metade do século XVII, com pinturas ingénuas nos espaldares, representando santos franciscanos. Nas paredes laterais, estão mais retábulos vindos do mosteiro antigo, alguns de muito nível.

O claustro tem enormes dimensões e um traçado vigoroso. Deve se o seu plano ao arquitecto Carlos Mardel, tendo as obras de construção decorrido durante a primeira metade do século XVIII; sabemos que, em 1737, ainda não estava acabado. Pelo seu excelente nível arquitectónico e pela qualidade de execução, constitui uma das mais importantes obras barrocas de toda a Região Centro.

No meio do claustro, ergue-se um monumento à Imaculada Conceição, onde normalmente deveria estar um tanque ou uma fonte. A obra estava inicialmente no exterior do mosteiro, tendo sido transportada para aqui depois da secularização. A escultura de Nossa Senhora é da autoria de Teixeira Lopes (pai).

Pedro Dias