NEM O MILAGRE DAS ROSAS RESOLVEU O “METRO”

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Depois de trinta anos a arrancar carris, a prometer carruagens topo de gama vindas diretamente do futuro e a deixar os Concelhos vizinhos do distrito a ver navios (sobretudo a Lousã), a Metro Mondego alcançou finalmente o seu zénite estratégico. Esqueçam a união da lenda da Lousã a Miranda do Corvo na tão propalada Área Metropolitana. Esqueçam a criação de uma estrutura regional integrada.

O verdadeiro destino manifesto do bilionário e longínquo projeto do Metro Mondego é, afinal, fazer exatamente o mesmo que o autocarro número 7 dos SMTUC já fazia nos anos 80, mas com uma roupagem muito mais chique e dispendiosa.

A prova cabal desta gigantesca ambição “pseudo - metropolitana" (segundo vozes conimbricenses) chegou com as festividades de Coimbra.

Numa nota de imprensa que devia ser estudada nas faculdades de Gestão e de Comédia, a administração anunciou orgulhosamente que irá «reforçar a operação do Metrobus nos dias 9 e 12 de Julho» para responder às procissões da Rainha Santa. É uma visão que não deixa de ser emocionante.

Imaginamos os engenheiros e planeadores de tráfego, de mapas na mão, a traçar o plano mestre para salvar o distrito do isolamento rodoviário.
- Unir Cantanhede, Condeixa ou Soure ao coração da Urbe? - Não.

- O foco estratégico mundial da administração é gerir o fluxo de fiéis entre a Sofia e a Portagem.
Mas o verdadeiro golpe de génio da engenharia nacional surge logo a seguir. No mesmo comunicado, a Metro Mondego avisa que, durante a passagem dos cortejos religiosos, «a circulação será temporariamente suspensa no troço urbano por razões de segurança». Brilhante!

Reforça-se o serviço precisamente para o suspender logo a seguir. É o conceito revolucionário do "Metro Fantasma": ele está lá para o passageiro, mas se o passageiro tentar andar nele, o troço fecha por milagre divino e razões de segurança.

Se a Rainha Santa Isabel transformava o pão em rosas, a Metro Mondego consegue a proeza ainda maior de transformar um investimento de milhões em paragens forçadas ao primeiro vislumbre de um andor.

Enquanto isso, os históricos e depauperados SMTUC assistem a isto de camarote — ou melhor, assistem encostados à berma, já que metade da frota municipal aguarda peças ou motoristas. Em vez de o metroBus funcionar como a espinha dorsal que traz os cidadãos de Pampilhosa, Penacova ou Montemor para a rede urbana, decidiu-se que o "metro" (que na verdade é um autocarro articulado a fingir que não é um autocarro) passaria a fazer concorrência direta às linhas da cidade.

Onde devia haver um passe intermunicipal que unisse o território e fizesse crescer a região, temos um sistema que canibaliza os transportes urbanos, forçando o município a reestruturações acrobáticas.

Os autarcas dos concelhos vizinhos, que ingenuamente esperavam que o século XXI chegasse em cima de carris, suspiram ao ver que a grande revolução da mobilidade distrital serve agora para levar estudantes da Solum à Baixa ou para desviar de procissões citadinas.

A Área Metropolitana de Coimbra continua a ser um belo mito urbano, ao nível do Monstro do Loch Ness ou de um autocarro dos SMTUC que passe exatamente à hora marcada no painel.

Parabéns à Metro Mondego. Conseguiram provar que, com trinta anos de atraso, muitos milhões de euros e imensa criatividade semântica, é perfeitamente possível criar um "metro" que não anda no metro, um sistema "metropolitano" que pouco sai do Concelho e um serviço de "reforço" que fecha quando as pessoas aparecem.

Ficamos todos a aguardar o próximo anúncio estratégico, talvez uma linha especial de metroBus que faça o circuito fechado à volta do Jardim da Manga, desde que não esteja a chover muito, claro!

JAG
10-07-2026