IGREJA DE S. BENTO
Foi pela relevantíssima conveniência de alargar a rua do Arco da Traição que as esclarecidas autoridades de Coimbra decidiram, no início dos anos 1930, demolir por completo a Igreja de S. Bento, um dos mais admiráveis exemplares da arquitectura da Renascença em Coimbra.
I - A CONSTRUÇÃO DA IGREJA DE S. BENTO
Deve-se a Fr. Diogo de Murça, da Ordem de São Jerónimo, nomeado por D. João III, em 1543, 4.º Reitor da Universidade desde a sua transferência definitiva para Coimbra, a fundação, em 1555, de um Colégio Universitário para os «Monges-estudantes de S. Bento», tendo-lhes dado morada provisória no próprio edifício dos Paços Reais.
Sendo comendatário do Mosteiro de S. Miguel de Refojos (Cabeceiras de Basto), Fr. Diogo de Murça conseguiu, em 1549, obter bula papal, autorizando-o a, com as rendas desse Mosteiro, fundar três colégios em Coimbra: um da Ordem de São Bento, outro da Ordem de São Jerónimo e outro para colegiais pobres (que não chegou a ser erigido).
Poucos anos depois da instituição do Colégio, os beneditinos adquiriram uma vasta propriedade no sítio da Genicoca, na encosta voltada a sudeste da muralha da cidade, terreno que, com o andar dos anos, foram aumentando e dilatando até chegarem ao rio, no sítio que ficou conhecido por “porto dos Bentos” e “ínsua dos Bentos”.
Foi na parte mais elevada do terreno, junto aos arcos do Aqueduto de S. Sebastião (construído entre 1568 e 1570), que iniciaram, em 1576, a construção do imponente Colégio (o segundo maior em área construída, a seguir ao Colégio de Jesus, mas suplantando este pela localização privilegiada e pela esplêndida cerca). As obras do Colégio de S. Bento finalizaram com a construção da Igreja, sagrada em 19 de Março de 1634 por Frei Leão de São Tomás, que nela foi sepultado.
Foram os famosos arquitectos Álvares os autores dos projectos do complexo: para a parte do Colégio sobretudo Afonso Álvares [falecido em 1580, autor dos projectos das Sés de Leiria (1551-1574) e de Portalegre (1556), da Igreja de São Salvador de Veiros (Estremoz, 1559), da segunda parte das obras do Aqueduto da Amoreira (Elvas, 1571), da modernização e ampliação do Forte de Santiago do Outão na foz do Rio Sado (1572) e do projecto inicial da Igreja de S. Roque (Lisboa, 1553-1575)]; e, para a parte da Igreja (cerca de 1600) o seu sobrinho Baltazar Álvares (1560-1630), autor de obras nos paços reais de Santarém, Almeirim e Salvaterra de Magos, e, em Lisboa, dos projectos do Convento jesuíta de Santo Antão e do Mosteiro de São Bento da Saúde (1598, actual Assembleia da República).
II - A DESCRIÇÃO DA IGREJA DE S. BENTO (por Albrecht Haupt e por António de Vasconcelos)
Na descrição de Albrecht Haupt (1852-1932), no segundo volume (datado de 1895, mas tendo por base desenhos e anotações feitos nas suas visitas a Portugal de 1886 a 1888) da sua obra “Die Baukunst der Renaissance in Portugal” (“A Arquitectura do Renascimento em Portugal”, tradução de Margarida Morgado, introdução crítica e revisão do texto de M. C. Mendes Aranázio, Editorial Presença, Lisboa, 1986, pp. 223-224):
“(…) a igreja (…) corresponde em estilo à do Carmo e à da Graça, só que as suas proporções são maiores. Foi consagrada em 1634, já depois de o Colégio, mandado construir em 1555 pelo Reitor da Universidade, D. Diogo de Murça, para aqui ser transferido em 1600.
À fachada, bela, simples e austera (il. 205) falta o remate superior e estavam talvez planeadas duas pequenas torres. As suas formas são delicadas e livres. A planta (il. 204) é muito semelhante à da Sé Nova, só que as capelas laterais são aqui mais baixas e pequenas. A arquitectura da nave (il. 206) é muito delicada, mas sóbria e digna. Abóbadas de caixotões cobrem todos os recintos, ostentando singular riqueza e formosura nos braços do transepto e na ábside quadrada do coro. A cúpula semi-esférica com caixotões e lanternim assenta directamente sobre o cruzeiro, como na catedral. Nas capelas vêem-se restos de pinturas a fresco.”
O Doutor António de Vasconcelos, que ainda conheceu, em 1869, a Igreja de S. Bento íntegra, descreve-a assim (“O Grandioso Templo de S. Bento”, inicialmente publicado no “Correio de Coimbra”, n.º 492, de 7/11/1931, e reproduzido em “António de Vasconcelos perpetuado nas páginas do «Correio de Coimbra» (1922-1941)”, Arquivo da Universidade de Coimbra, 2000, pp. 182-185):
“Igreja magnífica, magnificamente ornada e decorada. (…)
É duma só nave, muito ampla e elevada, cortada pelo transepto, que dá à sua planta a forma de cruz latina. No cruzamento da nave com o transepto, ergue-se, esbelto e majestoso, o zimbório-lanterna, que mais grandiosidade imprime ao conjunto.
Pilastras e arcos, de graves e sumptuosas cantarias, e, ao fundo, o belo arco triunfal de ingresso à capela-mor. Sobre o fecho deste arco, destaca do pano da parede, em alto revelo, a figura grande do Patriarca Titular. De joelhos, voltado à banda do Evangelho, recebe a missão que lhe dá o Senhor, que aparece em cima, a seus olhos e aos dos espectadores. (…)
A abóbada da capela-mor é toda de cantaria, em caixotões muito ornamentados e ricamente esculpidos. Estes caixotões têm os ângulos cortados e interceptados por grandes medalhões octogonais, onde se emolduram alguns Santos beneditinos, com os atributos que mostram a categoria de cada um deles – papa, cardeal, bispo, simples monge. Também ali se veem algumas monjas, e alguns anjos.
Tem a igreja seis capelas colaterais, abertas ao longo da nave, dum e outro lado.
Este grande templo era embelezado por bons azulejos do séc. XVII, que revestiam as paredes, ressaltando sobre eles as cantarias; os azulejos da capela-mor eram tricromáticos, dum desenho largo e muito decorativo, de que existem em Coimbra exemplos abundantes; os da igreja, brancos com ramagens azuis, muito singelos.
Em cada capela a parede do fundo era realçada pelas composições grandiosas dos retábulos de talha auriluzentes. No grande retábulo, que vestia todo o fundo da capela-mor, destacava majestoso o magnífico trono para as exposições do Santíssimo; nos das capelas laterais, abriam-se grandes nichos, que abrigavam as imagens dos Santos beneditinos, de estatura superior à natural, com a rodadíssima cogula monástica de amplas mangas, sobre a qual, em três das estátuas, se admiravam ricos pluviais brancos, estofados e alcachofrados a ouro; uma destas, de S. Gregório Magno, tinha o trirregno na cabeça e a tríplice cruz na mão, enquanto as outras duas empunhavam o básculo episcopal, com a mitra pousada aos pés. Havia ainda uma quarta estátua, a de Santo Amaro, simplesmente vestida com a cogula, báculo abacial na mão, e mitra aos pés. Belas e imponentes imagens!
A segunda capela do lado da Epístola era destinada à reserva eucarística. Fora ampliada no século XVIII, recuando-lhe o fundo; ergueu-se sobre ela uma elegante abóbada em forma de cúpula ou zimbório com lanterna, ornamentando-se interiormente esta abóbada com figuras alegóricas, de estuque. (…)”.
III – A IGREJA DE S. BENTO COMO SALA DE EXAMES E GINÁSIO DO LICEU DE COIMBRA E COMO SALA DE ENSAIOS DO ORFEÃO ACADÉMICO DE COIMBRA
Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, ficou abandonado o edifício de S. Bento.
Em 1836, parte foi entregue à Universidade para o alugar para habitação de lentes, estudantes e empregados. Em 1848, outra parte foi reservada à colocação de estabelecimentos científicos universitários, especialmente ligados ao Jardim Botânico e gabinetes de agricultura. O mais grave foi a destinação, em 1849, de parte do edifício para quartel militar (“As barbaridades, vandalismos selvagens e actos de rapinagem, que a soldadesca então lá praticou, constituem uma das páginas vergonhosas da história daquele tempo”, comenta António de Vasconcelos, no local citado). Felizmente em 1854 foi despejado o quartel militar e dado parte do edifício de arrendamento para instalação de um colégio particular de grande nomeada, dirigido pelo P.e Manuel Xavier Pinto Homem, que aí se manteve até 1859 (nesse colégio particular viveu, como interno, Antero de Quental, enquanto frequentou, entre 1856 e 1858, o Liceu de Coimbra, que funcionava então no Colégio das Artes), utilizando a Igreja de S. Bento para os actos litúrgicos do colégio, o que terá evitado a sua mais acelerada degradação.
Finalmente, em 1869/1870, o Liceu de Coimbra é transferido do Colégio das Artes para o Colégio de S. Bento, e, no verão de 1870, os exames de instrução primária que habilitavam à matrícula no Liceu e quase todos os exames do Liceu passaram a ter lugar na dessacralizada Igreja.
António de Vasconcelos (local citado) descreve assim a cena:
“Retiraram-se as imagens dos altares, as balaustradas de pau-preto com anilhas de bronze dourado dos dois púlpitos e das entradas das capelas, e deixou-se ficar tudo o mais.
Diante de cada altar colocou-se um biombo de lona caiado de branco, de cerca de 2m de altura, que deixava ver por cima quase todo o retábulo. À frente deste biombo colocou-se uma mesa, com três cadeiras para os vogais do júri e, a um e outro lado da capela, mesas, onde cabiam os examinandos, chamados em cada dia, os quais faziam ali as suas provas escritas.
Em a nave, adiante de cada capela, havia uma série de bancos, para os ouvintes.
Também foi aproveitado o transepto, funcionando um júri em cada um dos seus braços.
Quando se entrava na igreja, sentia-se uma impressão de estranheza desagradável. Os retábulos, rutilantes de ouro, diziam-nos que estávamos numa casa de oração; mas as pessoas que funcionavam junto dos altares não eram sacerdotes, e a gente que povoava a nave bem mostrava que outro era o fim que ali a reunia.
Lá ao fundo, na capela-mor, a mesa de latim e latinidade; no transepto, à parte do Evangelho, o júri de matemática, e na da Epístola, o que fazia os exames de física, química e introdução à história natural; nas capelas do lado do Evangelho, por sua ordem, caminhando do transepto para a porta, realizavam-se os exames de filosofia, os de português, e os de retórica, poética e literatura; finalmente, nos do lado da Epístola examinavam-se os alunos de francês, os de história e geografia, e os de inglês e alemão. A igreja transformada numa Babel!
Sentados nos bancos, em a nave, os ouvintes formavam grupo em frente de cada mesa de exames, enquanto pela coxia do meio da igreja um contínuo fluxo e refluxo de gente, que entrava e saía, produzia um rumor constante, impertinente.
Isto sucedeu durante toda a década de 1870, e ainda em parte da de 1880. (…)
E depois?
Os exames passaram todos para as salas, o templo fechou-se, e seguiu-se a devastação. Arrancaram-se os riquíssimos retábulos e os cadeirais do coro e o edifício tomou o aspecto duma casa saqueada, abandonada, em ruínas.
Foram roubados os azulejos, até à altura onde podia chegar-se de cima de um banco ou duma mesa, e houve até quem se entretivesse a alvejar a revólver, apontando a azulejos e partindo-os ou lascando-os. Os que ainda restavam, em 1909 fora dados por uma portaria do Governo a uma junta de paróquia, que os pediu para os colocar numa capela muito artística, que acabara de construir, e onde estão muito bem aproveitados. Foi quase a única mealha que se salvou de tantas riquezas decorativas em objectos de ourivesaria, de tecidos, de escultura, de talha, etc., etc.”
Acrescentemos que, no Museu Machado de Castro se conservam, pelo menos, cinco peças provenientes da Igreja de S. Bento: duas belas esculturas de madeira (uma “Pietà” e um “S. Miguel”), da autoria do bracarense Manuel de Sousa, nascido entre 1645 e 1650 e que, por volta dos 30 anos, ingressou no mosteiro de Tibães, a casa- mãe dos beneditinos, adoptando o nome de Frei Cipriano da Cruz; um cálice em prata dourada oferecido por D. Gueda Mendes em 1152 ao Mosteiro de S. Miguel de Refojos; e uma escudela e uma jarra de altar, em “louça de Málaga”.
Depois de ter deixado de funcionar como sala de exames do Liceu de Coimbra, a Igreja de S. Bento foi utilizada como sala de ginástica dos alunos do Liceu, tendo por professor de educação física Augusto Costa Martins (1865-1945), fundador do “Gymnasio de Coimbra” (1883) e bibliófilo.
A última utilização da Igreja de S. Bento foi como sala de ensaios do Orfeão Académico de Coimbra (sendo maestros António Joyce e Elias de Aguiar), como recorda Sant’Anna Dionísio (“Guia de Portugal – III – Beira / I – Beira Litoral”, 1940, p. 298):
“A igreja [de S. Bento], há poucos anos demolida, foi talvez a obra-prima de Baltazar Álvares e por alguns julgada uma das realizações arquitectónicas mais equilibradas da segunda Renascença coimbrã. A fachada era seca, mas a nave, com uma bela abóbada de berço, em caixotões, exprimia um raro sentido de harmonia. Nos seus derradeiros anos serviu de abrigo de pombos e lugar marcado para os ensaios do orfeão dos estudantes da Universidade. Cada naipe apinhava-se em sua capela lateral e o ensaio do conjunto da massa coral realizava-se, em hemiciclo, nos estrados da capela-mor. Sob a regência de Elias de Aguiar, o orfeão cantava trechos de Berlioz, de Palestrina, de Bach («Les Titans», «Amen», «Tenebrae», «Gardes de la Reine») e características rapsódias de canções regionais portuguesas. Era um singular ambiente, ora cheio de bulício, ora de acordes, ora sincopado de silêncio (no momento em que os braços do bondoso e enérgico Padre se erguiam sobre a ninhada escura) o que se respirava naquelas noites, no velho e abandonado templo, na véspera inquieta das grandes excursões.”
Uma das últimas vozes que lá se ouviu foi seguramente a do Doutor António Ferrer Correia, matriculado em Direito em Outubro de 1929 e apaixonado orfeonista, que recorda com saudade os ensaios na igreja do extinto colégio de S. Bento: “Como orfeonista, integrei o grupo em numerosos concertos e devo dizer que não era dos menos empenhados coralistas. Disso guardo uma indelével recordação. Quando me inscrevi no Orfeão, o regente era o cónego Elias Aguiar, músico distinto e amigo de todos os orfeonistas, que aqui lembro com saudade” (Maria Antónia Lopes e Maria João Padez de Castro, “António Ferrer Correia – Uma Fotobiografia”, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2008, p. 47).
Em finais de 1931, iniciou-se a demolição da Igreja de S. Bento. O crime consumou-se em Janeiro de 1932.
Coimbra perdeu uma joia da arquitectura renascentista, mas conseguiu alargar a rua a sul da empena dos posteriormente demolidos Colégio dos Militares / Hospital dos Lázaros (sensivelmente correspondente hoje ao edifício das Matemáticas).
Mário Torres
