TARRAFAL E A ÁRVORE QUE LUTOU PELA LIBERDADE RECUSANDO MORRER DE PÉ

(Segunda parte)
Falar sobre a ilha de Santiago em Cabo Verde não é uma tarefa fácil, especialmente quando a viagem nos arranca da mansidão amena da Praia e nos atira, de frente, contra a memória mais sombria da história portuguesa. Para dar continuidade à nossa crónica, deixamos para trás o ritmo do funaná, das mornas e os sorrisos da capital, para enfrentar um silêncio pesado. Viajámos até ao Norte.
Esta semana, o meu" postal" é sobre a visita ao Tarrafal e o som doloroso que ecoa ainda naquelas paredes.

Atravessar aquela porta de entrada foi um soco no estômago. Olhei para as pedras polidas da entrada e, por um instante, o tempo congelou. Imaginei corpos acorrentados, enfraquecidos pelas febres, a serem espancados enquanto atravessavam aqueles corredores de morte. Ao tocar nos muros frios, vi paredes marcadas por dedos feridos, unhas cravadas no reboco e palavras escritas sem esperança por homens que viram o mundo prender-lhes o corpo, e torturar-lhes a mente.
Criada pelo regime de Salazar através do Decreto-Lei número vinte e seis mil quinhentos e trinta e nove, a Colónia Penal do Tarrafal, tristemente célebre como o Campo da Morte Lenta, abriu as portas em outubro de mil novecentos e trinta e seis. Na primeira fase, serviu para prender e torturar os antifascistas portugueses, comunistas e republicanos. Mais tarde, em mil novecentos e sessenta e um, reabriu para encarcerar os combatentes pela liberdade de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Ao todo, dezenas de homens foram ali enterrados vivos pela ditadura do Estado Novo.
A crueldade ali era institucionalizada, mas ganhava contornos de sadismo requintado na cela de isolamento conhecida como a frigideira. Recentemente, arqueólogos cabo-verdianos e portugueses coordenados pelo Instituto do Património Cultural de Cabo Verde realizaram escavações e trouxeram à luz novas descobertas sobre este símbolo máximo da opressão. Guiados pelas memórias escritas dos próprios sobreviventes, os investigadores desenterraram as fundações e as linhas de parede originais da antiga frigideira, uma estrutura que o próprio regime fascista tentou mais tarde apagar e destruir. Os vestígios arqueológicos confirmaram a exatidão dos relatos históricos: um bloco de betão retangular de apenas sete metros de comprimento por três metros e meio de largura, dividido em duas pequenas celas sem janelas nem ventilação. Ali dentro, com portas de ferro pesadas que selavam os homens na escuridão total, o sol tropical transformava o espaço num forno crematório em vida onde chegaram a amontoar vinte prisioneiros de uma só vez, a pão e água, vendo a pele descolar-se do corpo pelo calor que ultrapassava os cinquenta graus.
Na enfermaria do campo, a medicina era usada como arma de tortura e o cinismo vestia-se de bata branca. O primeiro médico do Tarrafal era o capitão Esmeraldo Pais Prata, mais conhecido pelo " tralheira". Longe de exercer o dever humanitário da sua profissão, este homem dedicava-se a humilhar e maltratar sistematicamente os prisioneiros políticos. Negava os tratamentos mais básicos, confiscava os poucos medicamentos que as famílias tentavam enviar e ignorava o sofrimento dos homens que deliravam com malária e febre biliosa. Quando os detidos moribundos lhe imploravam por socorro na enfermaria, ele respondia com um sadismo gélido que ficou gravado para sempre na história do campo: “eu não estou aqui para curar, mas para assinar certidões de óbito”. Sob o seu olhar de desprezo e indiferença absoluta, aquela sala funcionava apenas como uma antecâmara para a vala comum.
Ao entrar na ala que me levava às celas, deparei-me com uma velha árvore caída à porta. Ela não morreu de pé. Tombou com o peso dos anos ou do horror que testemunhou. No entanto, há algo de profundamente poético e resistente naquela imagem. Talvez também ela tivesse acreditado que, havendo uma réstia de esperança, a vida e a liberdade possam ser conquistadas. Ela, mesmo deitada, conseguiu sobreviver, agarrando-se à terra árida, tal como os prisioneiros se agarravam à dignidade.
Atravessei aqueles corredores horrorizada e envergonhada com o passado do meu próprio país. Enquanto caminhava, uma questão não me saía da cabeça: como é que ainda existem políticos em Portugal saudosistas do fascismo e do Estado Novo? Como é possível, face a tanta evidência de barbárie, glorificar um regime que construiu este inferno?
Talvez eles neguem a realidade por nunca a terem vivido. Ao nascer, respiraram a liberdade; nunca conheceram a opressão de uma PIDE, o silêncio da censura ou o terror do isolamento. E a indignação estende-se ao presente: como é que governantes que lideram o mundo atual ainda mantêm presos de guerra em condições desumanas semelhantes por este globo fora? A história parece repetir-se em ciclos de prepotência.
Quis sair dali rapidamente. Sentia o ar rarefeito. Também eu me senti prisioneira ao ler cada biografia, cada carta e cada história de vida daqueles homens que sacrificaram a sua juventude e o seu sangue para conquistarem a liberdade que eu tenho hoje. Ao cruzar os portões para o exterior, as lágrimas queriam brotar, mas a garganta apertou e consegui apenas chorar interiormente, num pranto mudo de respeito.
Olhei à minha volta no recinto exterior. Quis o destino que, nos mesmos espaços onde muitos foram mortos e espancados, andassem agora em liberdade imensos animais pastando calmamente. Talvez a natureza, na sua infinita sabedoria, os tenha colocado ali para nos dar uma lição: para nos mostrar o quão importante é respirarmos livres, sem correntes, sem grades e sem as certidões de óbito do Tarrafal.
O Tarrafal mudou-me. Deixa de ser apenas uma paragem turística e passa a ser um dever de memória.
Voltarei daqui a algum tempo para trazer de volta as cores e a vivacidade das gentes de Santiago, porque a vida teima sempre em vencer a escuridão. Mas agora vou ali preparar o meu saco, para passar uma "semanita de férias " nos H.U.C.
Até lá, boas leituras.
Manuela Jones
