AS RATAZANAS QUE ROERAM A BRIOSA!

JOAO MARIA ANTUNES 1

 

Há dias e dias. Eu bem sei, pela minha prática, que a coisa às vezes é sofrida.

Mas hoje vou falar apenas como um adepto da Briosa, que acorda e pensa: “hoje vai ser um dia normal, talvez só sofrimento futebolístico habitual, nada de especial”. E depois abre as notícias e percebe que a Académica decidiu manter viva outra tradição mais antiga do clube, depois da fundação, que é a sua capacidade infinita de transformar qualquer situação em novelas económicas ou jurídicas, com episódios de temporadas e “spin-offs”.

Desta vez e segundo o comunicado, a Associação Académica de Coimbra – OAF vai reagir “através dos meios legais ao seu dispor” à decisão do Juízo de Comércio de Coimbra. Traduzido para português de adepto sofrido, é qualquer coisa como: “a Briosa não joga apenas nos relvados, também entra em campo nos tribunais, de toga, gravata e com um plantel de artigos do código civil que dá mais luta que qualquer médio defensivo da Liga 3”. O meu respeito aos colegas nesta luta.

E aqui o adepto pergunta-se, se isto fosse futebol, estaríamos a falar de um VAR eterno. O árbitro apita, o lance é revisto, volta a ser revisto, o assistente levanta a bandeirola, o VAR diz “espera lá mais um bocadinho”, e entretanto já passou uma época inteira. A Académica não perde processos, nem deve acontecer, simplesmente adia o apito final até ao prolongamento infinito.

Mas atenção que o comunicado é digno de uma equipa que perdeu por 1-0 aos 90+7 e ainda assim garante aos adeptos que “a confiança é total no processo”. Só falta a clássica ideia: “dependemos apenas de nós próprios”, mesmo quando o “nós próprios” inclui credores, juízes, recursos e provavelmente um estagiário a sublinhar documentos com um marcador fluorescente. Evidentemente que ficam de fora todos quantos foram arrastando a nossa Briosa para estes campeonatos. Quem terão sido as pessoas que foram arruinando a Académica?
Estarão bem com as suas pequeninas conscienciazinhas de ratazanas?

Isso não sei, mas sei que estão caladinhas a um canto à espera que ninguém lhes aponte o dedo e as obrigue a pagar o que extorquíram - alegadamente - pois está claro. Porque o ‘alegadamente’ funciona sempre até inquérito, mas como não parece que vá haver...fica o espaço em branco e a confirmação que a “culpa morre sempre solteira”.

Este quadro fica ainda mais bonito, naturalmente, quando se junta a serenidade institucional. Fala-se em “reapreciação judicial”, “fase específica”, “pressupostos iniciais do projeto”. Mas um adepto mais romântico, como eu, traduz isto como: “calma, isto foi só um mau passe no meio-campo da burocracia, ainda vamos virar o jogo aos 90+3 com um cabeceamento de esperança”.

E depois há o paradoxo delicioso da Briosa, num momento em que sobe à II Liga depois de quatro anos de travessia do deserto — com direito a poeira, miragens e algumas noites em que o GPS apontava para distritais — logo a seguir entra em modo “survival” jurídico. É o clássico “subimos de divisão, mas ainda não saímos do labirinto”, enquanto as “ratazanas” (perdoem-me os animais) já saltaram há muito do barco.

O adepto da Académica, esse ser resiliente e levemente masoquista, já não se espanta. Para ele, isto é só mais uma quarta-feira. Já viu descidas, subidas, planos, reviravoltas, comunicados com mais esperança que um miúdo a estrear chuteiras novas. O que ele quer, no fundo, é simples e passa por estabilidade, bola no chão e menos artigos do código e mais golos de calcanhar.

Mas se há coisa que a Briosa sabe fazer, é resistir! Mesmo às ratazanas que roeram a nossa Académica.

Entre processos, regressos e recomeços, há sempre uma certeza com a forma da ideia importante onde Coimbra não desiste da Académica, nem a Académica desiste de arranjar forma de manter os adeptos com o coração em “modo playoff permanente”.

E assim seguimos. Uns a discutir decisões judiciais, outros a sonhar com vitórias na II Liga, e todos unidos numa fé inabalável — a de que, um dia, a única coisa pendente na Briosa será mesmo um canto bem batido aos 89 minutos. E uma atitude firme que afaste as ditas “ratazanas” dos dinheiros da Briosa.

É nestas alturas que devemos gritar ainda mais alto: BRIOOOOSSSSSAAAA!

João Maria Antunes