COIMBRA - ONDE A MATURIDADE DOS JOVENS QUASE NÃO TEM IMPORTÂNCIA

MARIA DA LUZ RIBEIRO

 

Durante o meu percurso letivo pouco ou nada se falava de Paulo Freire e Agostinho da Silva. Talvez agora, com estas discussões da IA, seja bom “reanimarmos” estas figuras tão importantes para a Instrução.
Sim, disse ‘Instrução’ e não ‘Educação’. A ressalva era do Professor Agostinho da Silva.

Ora pois, há uma tradição humana extraordinária, usada sempre que aparece uma tecnologia nova, entramos imediatamente em modo quase apocalíptico. A espécie ainda não encontrou vida inteligente noutros planetas, mas encontrou uma capacidade ilimitada para anunciar o fim da civilização. É nestas alturas que a Inteligência Humana deve comparecer para encontrar as suas prioridades.

Foi assim com os jornais, com a rádio, com os livros de banda desenhada, com a televisão, com os videojogos, com a internet, com os telemóveis e agora com a “inteligência” artificial. Claro que tenho que fazer a ressalva que a IA é mais complexa, mas nem por isso está assim tão longe de uma torradeira muito sofisticada nas mãos de pessoas que têm atitudes mais infantis do que de gente responsável.

Desculpem a franqueza!

A verdade é que o guião catastrófico repete-se com uma consistência admirável. Alguém declara solenemente que “os jovens estão perdidos”, outro exige proibições urgentes e um terceiro culpa o ecrã por tudo, desde a falta de atenção até ao desaparecimento das meias na máquina de lavar roupa (e já me aconteceu mais vezes do que desejava). É tudo tecnologia!

Entretanto, há uma pequena questão que talvez mereça alguma atenção: e se o problema não estiver, só, na tecnologia?

Ideia absurda, eu imagino que sim.

Talvez o problema seja termos criado uma sociedade fascinada por ensinar pessoas a carregar em botões, mas pouco interessada em ajudá-las a perceber porque carregam nesses botões. Uma criança aprende hoje a editar vídeos, abrir contas, instalar aplicações e navegar por sete plataformas diferentes antes de aprender a fazer arroz sem supervisão. O progresso tem destas ironias.

Falamos constantemente de literacia digital, mas quase nunca falamos de literacia interior. Um adolescente pode saber alterar definições de privacidade em três segundos e, ao mesmo tempo, não conseguir reconhecer ansiedade, dependência, solidão ou a necessidade quase mística de verificar o telemóvel a cada vinte segundos, como se estivesse à espera de uma mensagem do universo.

A solução pública continua a ser o mais fácil e o menos correto para o Futuro, que é o uso constante dos verbos: proibir e conter. O verbo ‘proibir’ ganha cada vez mais espaço na pessoa e o ‘conter’ espaço para as entidades responsáveis.

Até parece que o ser humano adora cadeados. Há uma crença desligada da lógica de que, se colocarmos restrições suficientes, resolveremos problemas humanos complexos. Como se a maturidade pudesse ser instalada por decreto. E não é!

Imaginemos o cenário: “A partir de segunda-feira está proibido ser impulsivo, inseguro e emocionalmente confuso.”

Se funcionar, proponho imediatamente uma lei para acabar também com as parvoíces dos políticos, com as manias de governos tiranos e...acabar com a fome e com o uso do medo para manipular pessoas.

Talvez instruir seja algo mais difícil e menos espetacular. Talvez signifique ajudar as pessoas a crescer, a conhecerem-se, a compreender os seus impulsos e a ganhar autonomia. Porque uma pessoa que se conhece melhor precisa de menos fiscalização externa.

Por favor vejam as teorias de Agostinho da Silva e de Paulo Freire. Sem “politiquices” parvas! Por favor.

E talvez a pergunta mais incómoda seja esta: estamos a formar cidadãos conscientes ou apenas consumidores com passwords?

Porque, se continuarmos a educar pessoas interiormente frágeis, elas continuarão a ser manipuláveis. Se não for por uma aplicação, será por uma moda; se não for por um algoritmo, será por outra coisa qualquer inventada por crianças com a forma de adultos.

A tecnologia muda, enquanto a fragilidade humana, essa, continua a atualizar-se automaticamente. Ajudem os jovens a encontrarem-se antes de lhes tirar o telemóvel!

Maria da Luz Ribeiro
Professora de História