A VITÓRIA DA BRIOSA E DORES DE COTOVELO

Há dias em que Coimbra parece acordar num daqueles episódios raros em que a realidade resolve vestir a capa preta e branca da nostalgia e dizer “Hoje vamos viajar no tempo até aos anos sessenta”. No sábado, 16 de Maio (2026), foi uma daquelas datas onde pareceu-me que dei um passeio pelo passado.
Foi, sem dúvida, um dia marcante para a Académica/OAF. Quero acreditar que dei sorte à nossa Briosa ao inaugurar no dia anterior a minha presença neste maravilhoso jornal O Ponney. Ainda bem que aceitei este desafio do meu amigo José Augusto Gomes. A verdade é que o sábado passado vai ficar na história.
Não apenas pelo que se passou dentro das quatro linhas, mas sobretudo pelo fenómeno sociológico digno de estudo urgente, fiquei no meio de uma onda de mobilização geral em Coimbra. Em 23 anos e meio, número tão específico que parece ter sido calculado por um fiscal das finanças, o Estádio Cidade de Coimbra viu finalmente aquilo que muitos julgavam ser um mito urbano, uma onda imensa de gente. Muita gente. Gente suficiente para obrigar os bancos a recordar que também servem para sentar pessoas e não apenas para acumular pó histórico.
Emocionou o coração mais empedernido. Então não é que houve ainda esse detalhe quase inconveniente para os profissionais do pessimismo coimbrinha. A Académica não subiu “à rasquinha”, em sofrimento barroco ou graças a um empate arrancado aos 97 minutos com intervenção divina e três desfibrilhadores emocionais nas bancadas. Não. A Briosa resolveu subir com autoridade, derrotando o Trofense por 3-0 perante 26.356 espetadores que testemunharam esta data histórica!
O facto é que a equipa de António Barbosa perdeu apenas dois dos catorze jogos da fase de subida. Há fenómenos que desafiam claramente a ciência, a lógica e sobretudo a tradição emocional da cidade.
Houve aplausos vindos de todo o lado, alguns de espanto (o que, em Coimbra, é quase uma segunda língua). Até o presidente da Federação Portuguesa de Futebol apareceu com aquele ar de quem descobriu que a Liga 3 também tem internet e, pasme-se, adeptos vivos. Um verdadeiro momento “Breaking News, pois é, o futebol também existe fora da televisão”. É caso para libertar um audivel: Uau!
No estádio, ninguém faltou, ou melhor, faltou pouca gente que realmente conta em estatísticas oficiais. Estiveram autarcas, executivos municipais, reitores, presidentes de tudo o que é sigla com três letras, deputados e gestores de tudo o que mexe e até do que só mexe em relatórios anuais. Uma espécie de plenário nacional com relvado ao centro e emoções controladas por VAR ( Video Assistant Referee, em português árbitro assistente de vídeo) desta vez muito mais emocional.
Mas, claro, a festa não era deles. Era da Briosa. E aqui entra a parte em que a realidade faz aquilo que melhor sabe, que é o de lembra-nos que o futebol não é um seminário académico, apesar de algumas pessoas em Coimbra insistirem, há décadas, a tentar provar o contrário. Pois nestas últimas décadas não faltou “gente” que viveu à conta da OAF!
Os protagonistas verdadeiros são sempre os mesmos, os que se confundem na multidão, que são os adeptos. Juntaram-se os de sempre, malta resistente como pedras da Sé Velha e os novos, esses fenómenos recentes que descobrem o clube quando ele decide ganhar jogos e não apenas discursar sobre a derrota. Neste histórico sábado, houve bancadas com idade média de 20 anos. O que, em termos académicos, significa que há uma geração inteira que pensa que a Académica é uma equipa em modo “aleatório, mas com uma enorme esperança”.
E depois há os outros, como eu, que carregamos memórias. Umas boas outras menos boas e com aperto no coração por quererem dar cabo da Briosa. Somos aqueles que viram a Briosa noutras dimensões temporais, quando ganhar era menos raro e mais hábito inconveniente para o adversário. Somos os que sabem distinguir uma boa exibição de uma ilusão coletiva alimentada por euforia e bifanas.
No meio disto tudo, há protagonistas que insistem em estragar a narrativa simples de “adeptos sofrem, equipa joga”. António Barbosa aparece como o treinador que decidiu cometer o crime de ser pragmático numa terra onde o romantismo tático ainda manda mais do que a tabela classificativa. Chamam-lhe “conservador” — o maior insulto que se pode fazer num país onde toda a gente acha que inventou o 4-3-3 numa tarde de café. Mas depois ele faz o que interessa, assim “sem-mas-nem-meio-mas” ganha jogos e estraga previsões dos pessimistas.
Leandro Silva, esse sim, é personagem de romance épico. Capitão, maestro, motor, e aparentemente também fornecedor oficial de assistências (11) e golos (6), como se tivesse decidido fazer tudo para evitar que os colegas se cansassem demasiado. A sua substituição aos 88 minutos não foi uma alteração tática, foi um funeral emocional com palmas. Houve mais emoção ali do que em três temporadas completas de novelas portuguesas, disso não tenho qualquer dúvida!
Também tenho que dar nota do presidente Joaquim Reis. O homem que entrou no clube há menos de um ano e decidiu fazer o impensável, pelo menos por cá, não complicar. Num país onde a gestão desportiva é muitas vezes um desporto radical, ele optou pela perigosa estratégia da competência discreta. Manteve a dupla técnica, resistiu ao ruído dos “bota-a-baixo” e recusou ceder ao desporto nacional por excelência: o “empurrar o clube para o abismo com convicção”.
É quase injusto. Em Coimbra espera-se sempre drama, tragédia grega e um toque de fatalismo intelectual. Mas, por alguma razão, a Briosa decidiu insistir em algo escandaloso pela sua excelente organização. Talvez seja isso que mais incomoda. Quando a Briosa resolve lembrar-se de que também pode sorrir, há sempre alguém em Coimbra a procurar o manual para ver se isso é permitido.
Termino a lembrar que há por aí muita gente com dores de cotovelo e mais não digo.
João Maria Antunes
