O ALTAR DO ESQUECIMENTO É QUANDO O COLO SE INVERTE E O MUNDO SE SILENCIA

Por vezes, dou por mim a olhar para ela fixamente. O tempo, esse escultor implacável, mudou-nos a todos. Mudou a vontade, o corpo, o pensamento e até a forma como encaramos a morte, que agora espreita entre as rugas do rosto dela. Olho para a minha mãe e procuro a mulher de outrora: a que corria, limpava, sorria e cantava. A que transformava a cozinha num santuário de aromas e sabores, onde o pouco se multiplicava por milagre para alimentar quem chegava, fosse família ou estranho. Naquela mesa, ninguém era invisível.
Hoje, o cenário é outro. Onde antes havia música e azáfama, habita agora um silêncio denso que eu guardo à soleira da porta. Muitos partiram para essa dimensão desconhecida que ela chama de "Reino dos Céus", juntando-se ao Pai Celestial. Mas o que mais dói não são os que partiram; são os que ficaram e escolheram a ausência.
É um fenómeno cruel da natureza humana: a memória de quem recebe parece ser muito mais curta do que a entrega de quem dá. Aqueles familiares que ela amparou, os amigos que encontraram nela um porto de abrigo, os netos a quem ela dedicou o vigor da sua vida... onde estão agora?
As portas que outrora se abriam para a generosidade dela, hoje permanecem fechadas para a sua fragilidade. O telefone não toca. O "como está ela?" tornou-se uma pergunta inconveniente que ninguém quer fazer, por medo de que a resposta exija presença.
A demência roubou-lhe o mundo exterior, mas não lhe roubou a dignidade de ser amada. Bato à porta do seu quarto todas as manhãs, de mansinho, e o meu coração só volta a bater compassado quando ouço o seu "Bom dia, filha!". Sorrio. Ela ainda está aqui. E, num ciclo sagrado, eu faço o que ela me fez em criança: cuido.
Dói vê-la ficar mais pequenina, mais ausente, mais silenciosa. Dói sentir que ela já não quer passear, que o mundo lá fora deixou de lhe pertencer. Ela diz que não tem dores, mas a dor habita em mim. É a dor de precisar do seu colo e perceber que agora o colo tenho de ser eu. É a dor de ver o egoísmo daqueles que só se lembram dos pais e dos avós quando eles partem, transformando a culpa em flores de cemitério.
Não esperem pela partida para serem presentes. Não usem o "falta de tempo" como escudo para a vossa cobardia emocional. Cuidar de quem envelhece não é um fardo; é uma honra que testa a nossa humanidade. Eu decidi que o meu tempo é para ela, hoje. Não deixarei que ela caia agora, tal como ela nunca permitiu que eu caísse quando dei os meus primeiros passos vacilantes.
Mãe, fica comigo!
Abre-me a porta dos teus silêncios e deixa-me entrar. Mesmo que os outros se tenham esquecido do caminho para esta casa, eu estarei aqui. Porque o amor de uma filha não precisa que o outro se lembre de quem é; basta que eu nunca me esqueça de quem tu foste.
Manuela Jones
