REITORIA DA UC PROTEGE VACAS, MAS NÃO PESSOAS!

maria julia7

 

Estou irritada!
Caramba! Eu sei que tendemos a esconder os nossos preconceitos, a entretê-los às ocultas, para que não nos apanhem no ato e não tenhamos de nos justificar. Cobre-nos uma máscara de civilização, maquilhada num perfil institucionalmente aceitável que os outros desejam de nós.

- Claro, eu sei e reconheço! - Só assim posso corrigir-me, quando tenho essa consciência. Sim, ando a ler Hannah Arendt e a sua análise de um perigo maior que a IA que é o crescimento da “banalidade do mal”!

A realidade mostra-se mais cínica quando nos obrigam a cobrir, com as máscaras da tolerância, as instituições. Sobretudo aquelas que gostam de se apresentar como espaços iluminados do pensamento, lugares de saber, liberdade, ciência e superioridade moral - sim, como a Universidade de Coimbra. Vamos chamar os “bois pelos nomes”!

Mas há vícios, aparentemente discretos, que incomodam mais a quem os denuncia do que a quem deles sofre, falo, por exemplo, da perversidade de continuar a existir antissemitismo dentro de espaços universitários e de a sua presença produzir mais desconforto burocrático do que indignação humana. Fazendo lembrar alguns cartazes espalhados pela Alemanha na primeira metade do século XX no Nazismo.

A vítima foi Bar Harel, um estudante de doutoramento em Engenharia Informática. Quando expôs o clima de hostilidade que encontrou no campus após o início do conflito no Médio Oriente em Outubro de 2023. As suas denúncias incluíam símbolos e mensagens de ódio; presença de suásticas nas escadas e cartazes com expressões como "Sionistas não são bem-vindos" e "O povo escolhido gosta de matar bebés". Também a intimação pública com a exposição do seu passado militar e perseguição por usar uma kippah e símbolos israelitas.

Agora vem a Provedoria de Justiça e faz aquilo que tantas vezes parece constituir um gesto inovador, o de chamar as coisas pelos nomes. E diz haver “lacunas graves”, acusa passividade na forma como a Universidade de Coimbra (UC) lidou com as queixas de um aluno de doutoramento alvo de manifestações antissemitas no espaço universitário.

Desculpem o meu “português de rua”, mas não consigo conter um «- ora porra para isto!»

Porque há qualquer coisa de extraordinário na capacidade institucional de transformar sofrimento concreto em papelada administrativa. Uma pessoa apresenta uma queixa e a máquina da UC produz procedimentos. Uma pessoa denuncia hostilidade e a vetusta Universidade responde com protocolos. Uma pessoa diz: “estão a atacar-me”; e a Reitoria pergunta: “preencheu corretamente o formulário?”

Não consigo conter um “merda para isto”. Faço um esforço para não oferecer uma lista de impropérios dignos de um sargento de artilharia, apenas por delicadeza académica e respeito pelas sensibilidades universitárias, que são criaturas frágeis e facilmente perturbáveis, mas apenas com os assuntos que perturbam as suas barriguinhas!

A reação de estupefação de certas estruturas faz-me pensar que o problema não foi a manifestação antissemita, mas a inconveniência de alguém a ter colocado em cima da mesa. Porque o preconceito discreto, quando está quietinho no canto, parece suportável. O escândalo começa quando alguém lhe acende a luz. O Movimento de Humor, em Coimbra, é prova de que a luz sobre muitos assuntos incomodam. Incomodam ainda mais quando leva boneco que faz ranger os dentes.

Mas será que o resto dos conimbricenses não se apercebem que a passividade também contamina? E que o esconder o erro é alimentar a morte lenta de Coimbra?

Será que não sabem que a indiferença institucional possui uma perversidade própria?

Porque o silêncio raramente fica parado. Ele escorre pelas paredes, infiltra-se nas salas e instala-se confortavelmente ao lado dos que o produzem.

Ou se quiserem, à laia de moral da história digo-vos: «as universidades não existem para proteger a sua imagem; existem para que o Conhecimento UNIVERSAL possa proteger pessoas. Não atrofiar, nem asfixiar!!»

O resto são máscaras da simpatia académica e essas, como todas as máscaras, acabam sempre por escorregar.

Será que a proteção da UC é só para as vacas? Há aqui qualquer coisa de estranho!

Maria Júlia