Metro Mondego e os Filhos do Distrito Perdido

Há quem diga que o Metro Mondego é um projeto de mobilidade. Eu, sinceramente, acho que é um teste de ADN territorial: — Quem é filho de Coimbra? Quem é enteado? Quem é afilhado de Aveiro? Quem é sobrinho de ninguém?
Porque, vejamos: O Metro Mondego quer ir a Condeixa, quer ir a Cantanhede, quer ir à Mealhada — que, para quem não sabe, é distrito de Aveiro, mas aparentemente tem passe VIP para entrar na festa. E Montemor-o-Velho? Ah, Montemor… essa terra que deu teto, muralhas e provavelmente sopa quente ao jovem Afonso Henriques. Essa Montemor fica ali, sentada no banco de suplentes, a ver o comboio passar — literalmente.
E aqui nasce a pergunta que faria tremer até o mais experiente técnico da Infraestruturas de Portugal: Será que Pereira do Campo, Granja do Ulmeiro e Santo Varão não são filhos do mesmo distrito? Ou será que o Metro Mondego está a fazer como certas famílias portuguesas: — “Este é meu filho. Aquele é meu filho. Aquele ali… é do meu cunhado.”
A Mealhada, coitada, nem pediu nada. Estava sossegada, a fazer leitão, quando alguém decidiu: — “Isto dava um ótimo terminal de mobilidade.” E pronto, Aveiro ganhou uma extensão de metro que nem sabia que queria.
Montemor, por outro lado, está ali a olhar para Coimbra com a mesma expressão de quem emprestou dinheiro a um amigo em 2008 e ainda está à espera que ele “pague quando puder”.
E agora imaginem Afonso Henriques, lá na Igreja de Santa Cruz, a repousar com a paciência de quem já viu o país partirse, unirse, voltar a partirse, e agora vê o Metro Mondego a fazer escolhas afetivas. O primeiro rei, se pudesse levantar a cabeça (e não o deixassem voltar a deitála), diria algo como:
“Eu lutei em Montemor. Abrigueime em Montemor. E agora o metro passa ao lado como se fosse uma rotunda mal desenhada?”
A verdade é que Montemor-o-Velho tem tudo: história, castelo, arrozais, povo resiliente, e até um certo charme de vila que sabe que merece mais. Mas o Metro Mondego olha para ela como quem olha para um primo afastado no almoço de Natal: — “Gosto muito de ti, mas não o suficiente para te ir visitar.”
Enquanto isso, Mealhada, que nem do distrito é, recebe o metro como quem recebe um presente inesperado: — “Oh, não era preciso… mas já que insistem…”
E nós, pobres mortais do distrito de Coimbra, ficamos a tentar perceber se o Metro Mondego é um projeto de mobilidade ou um mapa emocional mal resolvido.
No fim, resta-nos a esperança de que alguém, um dia, olhe para Montemor-o-Velho e diga: — “Se calhar faz sentido ligar esta terra que fez parte da fundação do país.” Mas até lá, o metro seguirá o seu caminho, Mealhada sorrirá, Montemor suspirará, e Afonso Henriques continuará a repousar — provavelmente a pensar:
“Eu conquistei o território todo… e estes nem conseguem ligar o distrito.”
Otávio Ferreira
