COIMBRA EM CRISE: NA CULTURA, TURISMO HABITAÇÃO E OBRAS

Se vive em Coimbra, já sabe que não há nada a “acontecer”, a cidade vai-se desenrolando lentamente, como um caracol com medo do que irá acontecer. Esta semana não é exceção.
CULTURA
Se pensarem em atividades culturais, a cidade é Universitária, mas não é cultural. Para além de meia dúzia de eventos perdidos e achados sempre pelo mesmo reduzido público, o Convento de São Francisco (CSF) está cada vez mais na penúria dada à má gestão deste caro investimento cultural.
Por outro lado a Câmara Municipal de Coimbra reduziu em cerca de 2/3 a estimativa do orçamento de programação do Convento São Francisco, de 600 mil para 183 mil euros. Qualquer pessoa pensaria que havia contenção de custos na Câmara de Coimbra, mas a ausência de um programador limita também a possibilidade de apresentar candidaturas a programas de apoio à programação por parte da Direção-Geral das Artes (DGArtes), frequentemente utilizados por equipamentos culturais integrados na Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses.
Ora a falta de uma gestão com historial no CSF, afasta qualquer possibilidade de concorrer a fundos que permitam iniciar uma gestão mais responsável.
O cancelamento do concurso, acaba por aumentar o problema do buraco financeiro do CSF, por outro lado, pode encobrir, alegadamente, um concurso de grande responsabilidade, mal organizado e também encobre a grande falta de candidatura ao DGArtes. Sim, concurso muito mal organizado, mas que não é discutido em Coimbra.
A vereadora da Cultura, Margarida Mendes Silva, disse em reunião de Câmara que «estamos a trabalhar quer na revisão das receitas próprias do Convento, quer na procura de empresas que adiram ao mecenato, quer ainda na promoção de candidaturas que possam reforçar o orçamento da programação» o que é claramente uma contradição dado que o CSF não concorreu aos apoios disponibilizados pela DGArtes.
Para quem é de Coimbra esta é uma situação normal. Até porque a senhora vereadora da Cultura sublinhou a demagogia pela razão da decisão para anular o concurso público para programador do Convento São Francisco (CSF) não foi um «gesto político, mas sentido de rigor e de exigência». Esta foi a cereja em cima de um bolo com excesso de demagogia e que faz mal à saúde da Democracia.
OBRAS
As obras em Coimbra são a tradição mais estável da cidade. É um facto indesmentível. Tal como é indesmentível que os orçamentos para a construção sejam apenas uma leve referência que acabam, na esmagadora maioria das vezes, por passar ao dobro.
Há duas certezas em Coimbra: a existência da Universidade e as obras intermináveis. E esta semana as obras estão especialmente empenhadas em provar que o conceito de “acabado” é uma ficção social, tal como é a do “metro” que afinal é um autocarro.
A cidade parece mais um jogo de estratégia e que até pode servir como mote publicitário para atrais um tipo de turismo de desafio. Os turistas podem encontrar: ruas fechadas; desvios improvisados; placas contraditórias e um sentimento geral de “boa sorte”
Os conimbricenses já não perguntam “o que estão a fazer?”, mas sim “desta vez vão fingir que acabam?”
HABITAÇÃO
Habitação cara para o que oferece. Por outro lado as casas caiem de tão velhas na zona mais urbana. A solução poderia passar pelo executivo da Câmara Municipal de Coimbra criar medidas que facilitassem ao máximo a reconstrução dos edifícios fechados em Coimbra. Ou até por a CMC assumir as obras do privado na condição de explorar os espaços (com rendas mais baratas), mas que dessem para pagar o investimento público nas obras.
Mas o executivo municipal encontrou outra solução muito mais criativa. A Câmara Municipal de Coimbra, liderada por Ana Abrunhosa, está a notificar proprietários para reabilitar edifícios degradados e devolutos na Baixa, avançando com obras coercivas e tomando posse administrativa de imóveis. O que leva a venda imediata de imóveis a grandes especuladores imobiliários. Deve ser essa a intenção da senhora presidente da Câmara de Coimbra.
TURISMO
Turismo em Coimbra funciona com o modo “fotografar tudo e não entender nada”. O Turismo em Coimbra em lugar de ter um espaço, como por exemplo o edifício da Estação Nova, para dar uma perspetiva histórica e cultural geral de Coimbra aos turistas que aqui chegam, vai tornar o espaço em mais uma “brincadeira” para captar empresas para a região. Na realidade o problema é outro e num artigo de O Ponney.
Por outro lado os turistas continuam a chegar, confiantes, felizes e sem preparação para o que vão encontrar na cidade que já foi (ainda é oficialmente) capital de Portugal.
Os turistas continuam a visitar alguns espaços separados e a subir escadas sem saber porquê. No final, saem com centenas de fotos e a certeza de que visitaram uma cidade linda, mas com intenções hostis para as pernas e com conhecimento desarticulado.
O TRÂNSITO
Em Coimbra há o paradoxo existencial de que tem pouca população, mas sempre com carros em filas.
Se por um lado a presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, defende a redução da presença automóvel e o fim do estacionamento gratuito generalizado na cidade. No evento “Conversas sobre Ecologia Urbana”, a autarca sublinhou que a transição não será imediata, dependendo da oferta de alternativas eficazes aos cidadãos. «Que fique claro que Coimbra quer menos carros [...]» a realidade é que não há alternativas com boa gestão.
Os atrasos nos horários, a má gestão que leva a que os autocarros sigam as férias escolares (desligando-se das pessoas que trabalham);os maus autocarros dos SMTUC (muitos velhos e a poluírem) e alguns motoristas de mau trato já são o verdadeiro folclore de Coimbra.
O transito, em Coimbra, continua com semáforos com tempo existencial e nas saídas das rotundas. Fora da cidade (algumas dentro da cidade) encontram-se ruas estreitas com ambição de autoestrada e condutores que parecem estar todos a improvisar.
O trânsito funciona como uma metáfora perfeita da vida moderna, dado que ninguém sabe bem o que está a fazer, mas seguimos mesmo assim.
O PONTO ALTO
O ponto alto, em Coimbra, é que nada acontece de novo, mas é tudo com muita intensidade, muitas promessas nos jornais e pouca gestão correta de uma visão geral.
O mais curioso desta semana em Coimbra é precisamente isto de que não está a acontecer nada de particularmente extraordinário. No entanto tudo parece ligeiramente caótico, ninguém está totalmente descansado e há sempre alguém a calar-se quando se depara com o absurdo com ar de quem chumbou ou “apanhou uma raposa”.
Em Coimbra, a notícia da semana raramente é um evento específico. É mais uma sensação coletiva de que tudo está a acontecer ao mesmo tempo, devagar, e ligeiramente fora de controlo. Ainda assim, a cidade continua exatamente onde sempre esteve: bonita, cansativa e sempre com um executivo Municipal que está absolutamente convencido de que sabe o que está a fazer.
JAG
10-04-2026
