DOUTORADOS EM MACHISMO

Há escândalos que dizem mais sobre uma sociedade do que qualquer relatório, debate ou podcast. O mais recente caso do áudio misógino, racista e xenófobo partilhado num grupo de WhatsApp com cerca de 800 estudantes ligados à Universidade de Coimbra é precisamente isso: um raio-X moral de uma geração que faz threads no X sobre saúde mental, mas ainda acha que “a mulher serve para bater e mais nada”. Um daqueles momentos em que a máscara cai, a luz acende e percebemos que afinal a “cidade do conhecimento” ainda tem muito que aprender.
Em pleno 2026, isto acontece numa das universidades mais antigas, aquela que gosta de se apresentar ao mundo, como património da humanidade, berço do pensamento crítico e centro de excelência académica. Afinal, parece que alguns alunos interpretam “tradição académica” como manter valores medievais vivos.
O áudio incluía frases tão absurdas que até o vilão de uma novela da TVI diria: “calma lá, também não é preciso transformar isto num documentário sobre violência doméstica”. Mas o mais fascinante nem é o conteúdo, é a naturalidade e a confiança. A descontração com que certos jovens conjugam misoginia com racismo e xenofobia como quem comenta resultados da Liga Europa.
Estamos praticamente perante a banalidade da violência doméstica no século XXI, reforçada com a falta de sentido crítico, mesmo a dita “elite” perdeu não só as referências como também perdeu a vontade de praticar a auto reflexão. Agora esta banalidade vem em formato áudio, cheio de emojis, circula no WhatsApp e é partilhado não entre velhos de tasca, mas entre estudantes universitários, a suposta “elite” de direção do país. E depois ainda há quem fique surpreendido quando alguém reflete e chega a uma conclusão diferente da maioria.
A Universidade de Coimbra tem cerca de 30 mil estudantes, mais de 5 mil internacionais, dezenas de programas de mobilidade e uma estratégia institucional cheia de palavras como “inclusão”, “diversidade”, “globalização” e “interculturalidade”. Mas na prática percebe-se que alguns alunos vivem num universo paralelo onde a universidade é internacional, mas a própria reitoria incentiva mais a conjugação do verbo proibir do que os verbos pedagógicos discutir, pensar e refletir. Como foi o caso da proibição da carne de vaca nas cantinas universitárias.
É extraordinário como uma instituição com a maior comunidade de alunos brasileiros em Portugal, orgulhosa de ser global, diversa, multicultural, europeia, atlântica, lusófona, mediterrânica e mais uns quantos adjetivos estratégicos, vê agora o seu nome associado a um grupo de WhatsApp com áudios não só com ignorância maldosa, mas também com referências a mulheres brasileiras, reforçando a ignorância maldosa, com xenofobia, ocupando assim um lugar de destaque particularmente vergonhoso para Portugal, para as instituições universitárias e com relevo escandaloso para Coimbra.
A investigação já começou e os envolvidos podem enfrentar sanções sérias, incluindo expulsão. E sinceramente, uma universidade não é um parque temático da ignorância. Se o ensino superior é um espaço de conhecimento, não faz sentido manter comentadores frustrados, que insistem em viver na ignorância.
Mas o problema não é apenas o grupo, o grupo é o aquário e os peixes já vieram podres de casa (onde os pais já não têm tempo para os filhos), do ensino secundário (onde começam a perder as referências), é normalizar pelo preconceito em “piada”. É a velha tradição de achar que “é só uma brincadeira”, mesmo quando a brincadeira envolve violência contra mulheres, desumanização de estrangeiros e insultos raciais.
E talvez seja esta a grande crise das universidades modernas, descobriram como internacionalizar as instituições, mas ainda não perceberam como desenvolver mentalidades. Porque diversidade sem educação crítica é só decoração institucional para candidaturas a Erasmus.
Talvez esteja na altura da universidade olhar para dentro e perceber que não basta ter estudantes do mundo inteiro. É preciso garantir que todos, portugueses incluídos, saibam viver num mundo que já não tolera misoginia, racismo ou xenofobia mascarados de humor.
Enquanto isso não acontece, Coimbra continuará nesta posição curiosa, uma universidade global e multicultural frequentada por alguns alunos que intelectualmente ainda vivem num mundo onde o mal é banal, o machismo é tradição, o racismo é “piada” e o respeito pelos outros continua a ser tratado como anormalidade.
Isis
15/05/2026
