DOMESTICAÇÃO DO CALOIRO

Há tradições académicas que sobrevivem aos séculos com dignidade, como a tradição das capas negras, as serenatas, as noites em branco antes dos exames e a habilidade sobrenatural do estudante português para viver uma semana completa a massa e atum. E depois há a praxe académica.
Um fenómeno sociológico maravilhoso onde jovens adultos que entram na universidade para estudar Medicina, Direito ou qualquer outro curso e acabam, na realidade, de joelhos no chão a imitar galinha perante um indivíduo de 22 anos que descobriu o verdadeiro significado de poder depois de comprar um megafone no outlet da Worten.
Todos os anos ouvimos a mesma frase, repetida com a convicção de um comunicado institucional “a praxe é opcional.” Claro que é. Tecnicamente, ninguém obriga, esta é a realidade. Na prática, é preciso ter sorte para sobreviver socialmente em certos cursos depois de dizer “não, obrigado, prefiro manter a minha dignidade e a minha coluna intactas”.
Porque há Faculdades onde não ir à praxe não tem importância nenhuma e há outras onde recusar participar é quase equivalente a entrar numa festa da Queima e anunciar “boa noite, pessoal, acho o álcool sobrevalorizado e trouxe chá.”
O problema é que a praxe portuguesa vive numa zona cinzenta muito própria, não é obrigatória, mas muitas vezes funciona através de pressão social, medo de exclusão e aquela maravilhosa tradição chamada de “se eu passei por isto, tu também tens de passar”.
E isto até podia ser apenas uma comédia universitária ligeiramente constrangedora, uma espécie de teatro académico com capas, gritos, flexões e músicas desafinadas, se não existisse um histórico sério de abusos ligados à praxe.
O caso mais conhecido continua a ser a tragédia da Praia do Meco, onde seis estudantes universitários morreram numa praia em 2013 durante uma atividade associada à praxe. O caso chocou o país e abriu um debate nacional sobre silêncio, hierarquia e responsabilidade dentro destas tradições académicas.
Num ritual que supostamente serve para “integrar”, aconteceram mortes. E entre a “brincadeira inocente” e a tragédia existe um território enorme feito de humilhação normalizada: caloiros insultados, pessoas forçadas a beber, assédio psicológico, gritos, pressão coletiva e a clássica desculpa “é para criar espírito de grupo.”
A praxe tem ainda outra característica extraordinária pois consegue fazer vir ao de cima aos pequenos ditadores que existem dentro de alguns estudantes. Há qualquer coisa naquela combinação de capa preta, estatuto hierárquico e autoridade simbólica que faz certas pessoas comportarem-se como se fossem generais de um regime universitário clandestino.
E depois existe a hipocrisia institucional. No meio disto tudo, a universidade, a instituição que adora congressos sobre cidadania, direitos humanos e inclusão, continua a dizer que “está atenta”, que “acompanha” e que “regula”. Mas a verdade é que a praxe continua a ser um território semi‑selvagem onde a regra é simples quem manda, manda e quem entra, cala.
O mais irónico no meio disto tudo? A universidade devia ser o lugar onde os jovens aprendem pensamento crítico, autonomia e liberdade. Mas, para muitos estudantes, a primeira lição acaba por ser precisamente o contrário: “Para pertenceres ao grupo, cala-te e faz o que te mandam”, tanto dentro como fora da sala de aula.
E talvez seja aí que a praxe revela o seu lado mais desumano, a imposição de que alguém precisa de ser humilhado primeiro para merecer pertencer depois. Porque integração não devia exigir submissão e tradição não devia servir de escudo para abuso. E crescer não devia começar com medo de exclusão social. Um país que forma licenciados, mestres e doutores, mas que ainda anda a tentar perceber se o sentido crítico cabe ou não dentro das tradições universitárias.
Isis
15/05/2026
