E FEZ-SE BANCO COM MUITO DINHEIRO

antonio

 

Há duas certezas na vida moderna portuguesa: a primeira é que a gasolina e o gás vão subir de preço sem que a qualidade de vida acompanhe; a segunda é que a banca nacional, Caixa Geral de Depósitos (CGD), vai continuar a explicar-nos, com grande serenidade, que “os lucros históricos são resultado de uma gestão prudente e responsável”. O Ponney lembra que o banco que mais lucrou em Portugal, no ano de 2025, foi a Caixa Geral de Depósitos (CGD). A banca do Estado a tal que poderia, por exemplo, resolver a questão da falta de habitação.

O banco público atingiu um lucro histórico de 1.904 milhões de euros, um aumento de cerca de 10% face ao ano anterior. Este resultado foi impulsionado pela resiliência da margem financeira e por eventos extraordinários, como a venda da participação na Águas de Portugal.

O que é admirável, porque há pessoas que trabalham para viver. E depois há um Banco do Estado Português, que vive muito bem para nos explicar como é difícil viver.

Em 2026, o setor bancário português atingiu um nível de excelência dos deuses do Olimpo. Consegue apresentar lucros recorde com a mesma expressão facial com que pede ao cliente para pagar mais comissões “por manutenção de conta que nunca diz nos cartazes de Publicidade, mas que agora faz parte da sua identidade financeira”.

O milagre da multiplicação das comissões é mais verdade do que a multiplicação dos pães na mesa da maioria dos portugueses. Antigamente, os milagres eram coisas religiosas. Hoje são extratos bancários.

O cliente entra no banco com a esperança ingénua de resolver um problema simples, como ter dinheiro na conta, e sai com três novos serviços que nunca pediu. Desde a “comissão de manutenção”, passando pela “comissão de inatividade” e termina na “comissão por ter tido a ousadia de existir” num sistema bancário.

Se há algo verdadeiramente inovador na banca portuguesa é a capacidade de transformar o ar em taxa. «Respira-se? Então cobra-se!»

O crédito habitação é uma clara aventura espiritual. Sobretudo para a Caixa Geral de Depósitos (sim, a do Estado). Se não vejam: comprar casa em Portugal tornou-se uma experiência mística. Primeiro, o cliente faz um crédito habitação. Depois, o crédito habitação faz o cliente começar a perceber que vai ter que largar a casa e o pouco dinheiro que tinha.

As taxas de juro sobem e descem com a mesma previsibilidade de um drama de uma dessas séries (antigamente chamavam-se telenovelas), e o banco acompanha tudo com uma calma zen impressionante, como quem diz: «não se preocupe, isto é só o mercado a lembrar-lhe quem manda».

E quando finalmente tudo parece estabilizar, aparece uma carta: «Revisão de condições contratuais». Traduzindo do idioma bancário: «não estava suficientemente difícil e agora apertamos mais um bocadinho.»

O atendimento ao cliente é um exercício de resistência emocional. A maior parte das experiências, com quem falámos, é que “falar com o banco é um verdadeiro teste de formação de caráter”.

Primeiro, fala com uma gravação. Depois, com outra gravação mais otimista. Depois, com alguém que claramente não tem autorização para resolver nada. E finalmente, com a conclusão inevitável: «tem de se deslocar à agência».

A agência, por sua vez, é um lugar onde o tempo parou e onde a frase mais repetida é «isso não é comigo, é no outro balcão».

Lucros recorde e a matemática criativa. Mas por que razão a banca emprega tantos criativos?

A verdade é que todos os anos, a banca portuguesa anuncia lucros históricos com uma alegria discreta, quase tímida, como quem encontrou petróleo no jardim e não quer fazer barulho. Até o banco que seria do Estado ou para apoiar a população é um dos que lucra mais. Há sempre a mesma explicação criativa do «contexto de subida das taxas de juro».

É fascinante como o contexto sobe sempre na direção certa que é para os bolsos dos bancários. Nunca desce. Nunca falha. Nunca prejudica o lado errado da equação.

O cliente moderno é um banco ambulante. O cliente bancário português evoluiu. Já não é apenas cliente. É também gestor de conta, contabilista informal, psicólogo de taxas de juro e especialista em decifrar linguagem passivo-agressiva de e-mails institucionais.

Aprendeu a viver com notificações como: «Foi cobrada comissão de manutenção»; «Atualização de preçário»; «Alteração unilateral de condições»; «Não se preocupe, é normal».
Que porra!

Conclusão fez-se banco… e ficou-se com ele

No fim de tudo, a banca portuguesa é um fenómeno curioso: consegue ser simultaneamente essencial, lucrativa e absolutamente indispensável… para si própria.

O país muda, os governos mudam, as tecnologias mudam, mas há algo que permanece sólido como uma rocha financeira que é a capacidade do banco de crescer enquanto explica que não está a crescer por causa dos clientes, mas sim apesar deles.

E assim se fez banco.

Com muito dinheiro.

E com muito pouca dúvida sobre quem o está a pagar.

António Pinhas