COIMBRA ONDE O VELHO GLAMOUR DAS UNHAS DE UMA CIDADE COM URTICÁRIA

Coimbra não é uma cidade; é um suspiro prolongado que dura há oito séculos. É o caso de estudo mais fascinante de como uma herança monumental pode transformar-se numa âncora de chumbo. Olhamos para as pedras da Alta e vemos o fantasma de D. Afonso Henriques a tentar encontrar estacionamento, a Rainha Santa Isabel a distribuir rosas para tapar buracos nas calçadas e o drama de Pedro e Inês reduzido a uma metáfora da própria cidade, onde um amor eterno acabou degolado pela burocracia e pelo marasmo.
O passado de Coimbra é um desfile de glamour histórico. Fomos (ainda o somos oficialmente) o berço do reino, a capital do saber, o epicentro de uma universidade com 736 anos de conhecimento acumulado que, ironicamente, parece não ter aprendido a fórmula para ligar o cérebro ao corpo. Temos uma academia que produz teses brilhantes sobre o futuro da humanidade, enquanto, do lado de fora dos muros da universidade, a cidade definha numa "urticária" constante de obras intermináveis e transportes públicos que são mais um exercício de fé do que de mobilidade.
A Coimbra de hoje é uma cidade vazia e sem rumo, onde o "desenvolvimento" parece resumir-se à monocultura do betão, onde constroi-se habitação (muitas vezes inacessível), mas não se constrói um propósito. Perdemo-nos em lutas de corte de árvores e em “politiquices de campanário”, enquanto o talento jovem, aquele que a Universidade forma com tanto esmero, foge pela A1 ou pela A17 mal recebe o diploma, porque a cidade não lhes oferece mais do que uma saudade antecipada.
A relação entre o passado glorioso e o presente medíocre é desastrosa. Vivemos num estado de ansiedade constante, num marasmo que corrói. Como é que uma cidade com este potencial se permite ser apenas um dormitório de luxo com vista para ruínas?
Como é que 736 anos de saber não conseguem ditar uma estratégia de desenvolvimento local que vá além da exploração turística do "fado de estudante"?
Para largar esta âncora, Coimbra precisa de mais do que obras. Precisa de um transplante de audácia. É preciso que a Universidade deixe de ser uma ilha de marfim e se torne o motor de uma economia real. É preciso que a gestão da cidade deixe de ser uma luta de "cortes e recortes" e passe a ser um desenho de futuro.
Se continuarmos assim, o futuro que nos espera é o de um museu a céu aberto, muito bonito, mas onde ninguém quer viver porque a urticária do imobilismo se tornou insuportável. Coimbra precisa de se decidir: ou volta a ser a cidade que faz história, ou continua a ser a cidade que não pode pode pagar a eletricidade, onde as luzes se apagam e os últimos residentes (ou resistentes?) fecham a porta.
"Vim, vi e... fiquei parado na rotunda à espera do Metro Mondego."
— Júlio César (numa hipotética e frustrante visita à Baixa de Coimbra)
Ministro do Interior do Movimento de Humor, Octávio Ferreira.
