“TRANSPORTE VIRTUAL” É A NOVA TECNOLOGIA EM COIMBRA

Coimbra continua a ser uma cidade pioneira. Há cidades que apostam na mobilidade sustentável. Coimbra resolveu inovar e por isso vai apostar na mobilidade virtual. Gasta-se muito menos e os utentes podem não sair dos seus sofás.
Durante anos ouvimos o apelo civilizacional sustentável para se deixar o carro em casa, usando os transportes públicos, pensando no ambiente, reduz-se a pegada carbónica, para tornarmo-nos nos novos cidadãos do século XXI. O cidadão, ingénuo por natureza, pensou que era para aumentar a sustentabilidade. Há quem fez esse esforço. Decorou horários de autocarros, o que exige a memória de um campeão de xadrez, e a fé de um peregrino.
E agora descobre-se que a verdadeira sustentabilidade era outra, a de sustentar a realidade virtual de transporte público, sem a inconveniência de haver transportes.
Os SMTUC vão cortar mais de 327 horas de circulação. Linhas desaparecem. Horários encolhem. Algumas carreiras evaporam-se com a serenidade de quem tira redundâncias a uma apresentação virtual. Quem vive à espera de autocarro sabe que as “redundâncias” davam muito jeito a quem ouvia que não havia autocarros, motoristas ou mecânicos nos SMTUC.
Diz-se até, com tranquilidade técnica, que não haverá perdas de serviço. É uma frase magnífica. Faz parte daquela categoria rara de frases administrativas que desafiam a realidade que todos nós conhecemos na prática. Porque o cidadão comum tem uma visão simplista destas coisas. Parte do princípio absurdo de que, se uma linha desaparece, talvez haja menos serviço. Felizmente há especialistas para esclarecer que não. Não é nada disso. O serviço permanece. Desaparece apenas a parte em que passa o autocarro.
Explicam-nos, a nós cidadãos que não somos especialistas, que faltam viaturas, faltam motoristas, há excesso de trabalho suplementar. Tudo compreensível. Menos compreensível é a sensação de que Coimbra está a entrar numa fase de realidade virtual dos transportes públicos. Antes havia autocarros reais. Agora há sobretudo o conceito de autocarro.
E quem trabalha e precisa de transportes? É uma pergunta antiquada. Quase ofensiva. Parece saída do século XX. O trabalhador moderno não espera um autocarro, sabe adaptar-se. Reinventa-se. Teletransporta-se em filmes.
Percebe-se, aliás, o estado de espírito geral pelo facto de a presidente da Câmara, Ana Abrunhosa, ter dito na televisão que preferia ser presidente da Câmara de Cascais. Para quem quiser confirmar está na parte inicial do "Expresso da meia-noite", que foi publico há precisamente uma semana, na SIC Notícias.
Mas percebe-se. Cascais é uma escolha compreensível. Coimbra, neste momento, é uma cidade onde até os autocarros parecem querer mudar-se para outro Concelho fora do distrito de Coimbra - atenção!
Talvez seja esse o futuro de Coimbra, uma cidade sustentável porque ninguém se desloca na Realidade Virtual, onde não há trânsito. Também não há emissões, nem há atrasos. E claro também não há carreiras.
E, sobretudo, não há redundâncias.
Ou será que se está a encolher os SMTUC para mais fácil servir o interesse de empresa municipal, com a rede do dinheiro público e decisão ainda menos transparente?
A CMC não confirma nem desmente.
MCG
29-05-2026
