CIÊNCIA PRECÁRIA PARA QUE HAJA MAIS “ACARTADORES DE COMIDA”?

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Na mais recente temporada da já longa série “Investigação Científica em Portugal”, cinco investigadores, de Coimbra, decidiram sair do papel de figurantes e avançar com uma queixa formal, com direito a episódio especial em tribunal, contra a Universidade de Coimbra. O argumento? Dizem que os “concursos prometidos pelo Decreto-Lei 57/2016 são uma espécie de unicórnio administrativo” muito falado, pouco visto.

Do outro lado do palco, a reitoria garante que tudo foi feito “em estrita conformidade com a lei”, expressão que, no contexto nacional, tanto pode significar rigor absoluto como uma interpretação criativa digna de prémio literário.

Segundo Fernando B. Figueiredo, investigador desde 2007 e testemunha ocular de várias eras geológicas da ciência portuguesa, a promessa de estabilidade feita em 2016 continua, dez anos depois, a ser tratada como um conceito abstrato, tipo “felicidade” ou “Wi-Fi funcional em edifícios históricos”. A lei mudou para combater a precariedade, diz, mas a precariedade, resiliente, decidiu não mudar.

A narrativa complica-se quando entramos no mundo dos concursos. A universidade afirma ter aberto mais de 300 ao longo dos anos. O que é um número impressionante que sugere dinamismo, oportunidade e, possivelmente, uma forte produção de editais. Já os investigadores contrapõem com uma nuance onde «os concursos existem, sim, mas não exatamente “onde deveriam”. É como organizar um banquete e convidar toda a gente, mas para uma sala diferente».

A reitoria insiste que os concursos não podem, nem devem, ser feitos “à medida” de investigadores específicos, evocando princípios de imparcialidade. Um argumento sólido, não fosse o detalhe levantado pelos queixosos «ao não refletirem as áreas reais de trabalho das equipas», onde «alguns concursos tornam-se exercícios teóricos de inclusão, abertos a todos, acessíveis a poucos, relevantes para quase ninguém».

Entretanto, os direitos dos investigadores, garante a UC, estão “salvaguardados no quadro legal aplicável”. Uma frase reconfortante que, traduzida para linguagem corrente, significa que, se algo correr mal, há sempre a opção de recorrer aos tribunais o que, curiosamente, foi exatamente o que aconteceu.

Inspirados pelo precedente de Lisboa, onde investigadores conseguiram decisões favoráveis em tribunal, os queixosos de Coimbra parecem apostar numa estratégia inovadora, que é o de usar a lei não apenas como referência institucional, mas como ferramenta prática. Uma abordagem quase revolucionária para Coimbra.

No meio disto tudo, permanece a questão essencial: estamos perante um problema de execução ou apenas de perspetiva? Para a UC, o sistema funciona, Já para os investigadores, funciona, mas numa dimensão que não é esta.

E assim segue a ciência portuguesa, entre concursos abundantes e oportunidades escassas, entre legalidade irrepreensível e realidades contestadas. Uma tragicomédia onde todos têm razão, o que, como se sabe, é muitas vezes a forma mais elegante de ninguém a ter completamente.

Quanto ao resto: concursos pouco transparentes, taxas aplicadas a projetos de investigadores precários e níveis de burocracia capazes de testar a fé de qualquer cientista — isso, claro, são apenas contos de ficção académica.

Será que toda esta dificuldade que impede a investigação em Portugal uma estratégia para se aumentar os trabalhos de entregador de comida (por exemplo da Globo ou Uber Eats) e de condutores de Uber? É que se tiver esta intenção, Coimbra está no bom caminho.

FG
17-04-2026