PREPARAR GERAÇÃO DE "NATIVOS DIGITAIS" QUE NÃO SABEM O QUE ESTÃO A FAZER, MAS FAZEM-NO COM IA

Num cenário onde metade dos jovens entra no 10.º ano com a mesma bússola vocacional de um GPS sem sinal, e onde a taxa de abandono escolar no ensino superior compete taco a taco com a velocidade de propagação de memes, surge uma nova esperança que é a Inteligência Artificial. Segundo um inquérito da Associação Académica de Coimbra (AAC), 80% dos estudantes já delegaram o seu destino intelectual ao ChatGPT, provando que, se não sabem que curso escolher, ao menos sabem quem deve escrever a tese de desistência.
Dados recentes indicam que o desporto nacional já é a "Mudança de Curso". Com 13,2% dos novos alunos a baterem com a porta logo em 2025, o ensino superior tornou-se uma espécie de “speed dating” académico.
A culpa, dizem os especialistas, é da "maturidade vocacional limitada". Traduzindo para português corrente: os alunos escolhem o curso com base na nota de Matemática e na pressão dos pais, acabando a estudar “Engenharia para Caixa de Hipermercado” (ECH) quando, na verdade, só queriam ser influenciadores de pastelaria artesanal.
Dizem os alunos da UC que em 11 cursos específicos, “a taxa de desistência é tão alta que as salas de aula já estão a ser equipadas com portas giratórias de alta velocidade para facilitar o fluxo de entrada e saída”.
Enquanto os estudantes tentam perceber se o curso de Direito serve para ser advogado ou apenas para ganhar discussões no Twitter, a Inteligência Artificial entrou em cena. O manifesto da AAC surge para travar o que alguns professores chamam de "cretinização digital". No entanto, a Direção-Geral da AAC recusa o rótulo de "geração de cretinos", preferindo o termo "nativos digitais". É uma distinção subtil em que o “cretino” não sabe, por outro lado o “nativo digital” sabe que a IA sabe por ele.
O vice-presidente da AAC, António Lopes, defende que deve haver "primeiro o esforço humano e depois a IA". Uma proposta revolucionária que sugere que o aluno deve, pelo menos, ler o enunciado antes de o copiar para o prompt.
Já a OCDE, sempre pessimista, avisou para o risco de "preguiça cognitiva". Em resposta, os estudantes garantem que não é preguiça, é apenas "otimização de recursos biológicos para poupança de energia cerebral".
Se 47% dos alunos do secundário não fazem ideia do que querem ser quando forem grandes, a IA surge como o mentor ideal. "Eu perguntei ao ChatGPT o que devia seguir", confessa um estudante anónimo que pediu para não ser identificado por estar atualmente matriculado em três cursos diferentes. "Ele sugeriu Filosofia. Depois sugeri que ele fizesse o exame por mim. Agora somos ambos desempregados, mas com um vocabulário incrível."
O manifesto agora apresentado pede regulamentação urgente, temendo que as universidades se transformem em meros centros de processamento de dados onde o único esforço humano é carregar no Enter. A ideia é que a IA seja um auxílio e não a fonte exclusiva dos factos – uma distinção difícil de fazer quando o aluno médio confia mais num algoritmo do que na própria capacidade de distinguir uma sebenta de um menu da cantina.
Com o abandono escolar a subir e a utilização da IA a generalizar-se, o futuro do ensino superior em Portugal parece claro: teremos corredores vazios, mas servidores cheios de ensaios brilhantes sobre temas que ninguém compreende. Enquanto a tutela não decide se a IA é uma ferramenta pedagógica ou o apocalipse da inteligência, os estudantes continuam a seguir o lema: «Se a média não dá para o que eu quero, e eu não sei o que quero, o ChatGPT que decida por mim.»
Afinal, para quê ser um "cretino digital" por conta própria quando podemos ter um algoritmo a ser brilhante em nosso nome?
Enquanto isto, Coimbra continua sem discussão sobre o que é a “Inteligência Humana”.
AG
17-04-2026
