COIMBRA À ESPERA DE UM MILAGRE

Coimbra gosta de se apresentar como uma cidade segura e tranquila, uma espécie de postal ilustrado onde nada de grave acontece, mas basta caminhar pela Baixa para perceber que a segurança na cidade é uma coisa curiosa. Normalmente existe um plano, uma estratégia organizada, investimento, prevenção e uma sensação de proteção. Mas em Coimbra estamos perante um fenómeno muito mais criativo, a fé. Sai-se de casa, atravessam-se determinadas zonas e acredita-se simplesmente que vai correr tudo bem.
Os dados de criminalidade mostram aquilo que toda a gente sente, mas poucos gostam de admitir. De acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), remetido pelo Governo à Assembleia da República, Coimbra foi o distrito que registou a maior subida percentual da criminalidade geral em 2025. E não é preciso abrir relatórios para perceber que alguma coisa mudou. Mais participações criminais, episódios de vandalismo, burlas, furtos, uma crescente sensação de insegurança relatada por muitos moradores e zonas onde a única presença verdadeiramente constante parece ser o vento.
Aliás, Coimbra tem edifícios abandonados suficientes para criar uma nova atração turística: “Coimbra - O Regresso dos Fantasmas Urbanos”. Seria uma experiência imersiva. Passeio pela Baixa, passagem obrigatória por ruas escuras e, com alguma sorte, uma sensação permanente de suspense digna de um filme de terror de baixo orçamento.
Mas talvez o verdadeiro mistério esteja nas prioridades. Porque dinheiro para algumas coisas parece existir. A cidade investiu cerca de 70 mil euros na instalação de cartolas suspensas na Baixa, na Rua Adelino Veiga, uma iniciativa destinada a colorir o espaço urbano. E atenção aos detalhes, as cartolas foram colocadas tendo em conta questões de iluminação e, muito importante, a segurança das próprias cartolas.
A ironia é que, passado algum tempo, a chuva parece ter decidido participar no projeto. Hoje, as cartolas apresentam sinais de degradação, transformando aquilo que deveria ser um símbolo decorativo numa espécie de experiência artística involuntária sobre o desgaste. Afinal, numa cidade onde há estruturas a cair aos poucos, talvez as cartolas tenham decidido integrar-se na paisagem.
É reconfortante perceber que, numa cidade onde algumas pessoas evitam atravessar determinadas ruas à noite, como por exemplo na Rua Adelino Veiga e do Beco dos Canivetes, houve preocupação em proteger as cartolas. Pena que a proteção não tenha resistido ao clima. Coimbra pode não garantir segurança aos cidadãos, mas tentou garantir segurança às cartolas. E, pelos vistos, nem essas escaparam.
A contradição é tão evidente que se torna quase poética. De um lado, prédios abandonados, ruas escuras, falta de policiamento e moradores que evitam certas zonas depois das dez da noite. Do outro, uma instalação artística que promete “colorir a Baixa” como se a criminalidade fosse um problema de cores e não estrutural.
E assim continua Coimbra, uma cidade onde a segurança pública é tratada como um extra opcional, algo que fica para depois, para quando houver orçamento, tempo ou vontade política. Uma cidade onde, por vezes, parece existir mais entusiasmo para inaugurar algo fotogénico do que para resolver problemas permanentes.
No fim, a verdadeira ironia é esta, Coimbra não precisa de mais cor, precisa de mais segurança. Não precisa de cartolas suspensas, não precisa de obras que funcionem bem nas fotografias e nas redes sociais, precisa de decisões que tratem a cidade como um lugar habitado e não apenas como um cenário.
Porque, enquanto a cidade continuar a investir mais em decoração do que em proteção, talvez a única coisa verdadeiramente segura em Coimbra seja a certeza de que nada muda. E numa cidade onde até as cartolas têm um plano de proteção, talvez a pergunta mais séria seja também a mais simples, quem protege os cidadãos?
Isis
22/05/2026
