Revoluçãozinha

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Como muito bem diz o autor, 1820 (a tal revoluçãozinha liberal) foi o derradeiro fim de tudo o que começou em Ceuta, em 1415.

"De Portugal a "este país" (1820-2020).

Como a árvore se conhece pelo fruto, os regimes devem ser mais avaliados pelo que realizam que pelos princípios - quase sempre banalidades envoltas em sedas de grandiloquência - com que a si mesmos se justificam. Em Portugal não há revoluções, só transferências mais ou menos mascaradas de poder: o nosso liberalismo começou com missa seguida de vivas ao Rei e à Santa Religião - um pouco como o 25 de Abril, que se fez com Spínola, figura de confiança da direita, a jurar na televisão a unidade pluricontinental do Estado. Na primeira encarnação, o liberalismo nacional abriu a porta para o caos que nos levou à perda do Brasil, coração do império e, logo, única esperança de um Portugal que ainda podia, há meros duzentos anos, crer-se e sonhar-se uma grande potência.

O nosso segundo liberalismo, o pós-34, chegou trazido pela marinha inglesa para de cá expulsar, com mercenários que o país teria de pagar à banca de Londres nas décadas seguintes, o último dos nossos reis aclamados em Cortes. Consumada a divisão dos "portugueses de ambos os hemisférios" (assim os descreviam as constituições de 1820 e 1822) em brasileiros e "portugueses de cá", como convinha ao capital londrino, a França liberal bloqueou-nos Lisboa e Napier afundou-nos a Armada ao largo do Cabo São Vicente. Napier era inglês; ingleses eram os comandantes liberais, assim como a maioria das tripulações. Ali, de Portugal, só os nomes dos navios e as armas do pavilhão azul e branco. Em terra não foi diferente. O exército de Dom Miguel foi sempre mais numeroso, pois com ele marchava o povo em armas. Mas, mal armado e incompetentemente liderado, não podia querer resistir a uma invasão decidida pelos grandes poderes europeus. Em 34, com a França dos Orleães, a Espanha recém-liberal e a Inglaterra prontas a ocupar o país, Dom Miguel capitulou em Évora-Monte. Saiu, ao que parece, muito atacado por canalha paga pelos vencedores, que o insultava nas ruas e nas estradas - contudo, sem perder a dignidade esperada de um Rei. Perdeu-se com ele talvez não o dito "Absolutismo", mas o melhor da cultura portuguesa, que o seguiu para o exílio. E, sobretudo, a esperança de um Sonderweg português, de um caminho nosso para a modernidade e a industrialização que tivesse, como a Prússia ou a Áustria, avançando em estabilidade e com a preservação das suas instituições tradicionais para o século XX.

Mouzinho desfez depois o poder histórico dos concelhos para erguer sobre eles, democracia prática, a ficção dos direitos individuais - como contundentemente tem mostrado Espinha da Silveira, o novo regime, definido pelo voto censitário, foi sobretudo de exclusão. Distritos havia com apenas uns centos de eleitores permitidos; no do Porto, segunda cidade do país, seriam uns poucos milhares. A esta ditadura dos ricos se chamou democracia. Os mosteiros foram fechados e nacionalizados. o que valeu o corte de relações com a Santa Sé. Património artístico e cultural de séculos foi atirado porta fora, os tesouros das Igrejas levados para Lisboa para fundição em lingotes e os dormitórios dos monges convertidos em fábricas ou armazéns de trigo. Foi in extremis que Dom Fernando II salvou a Custódia de Belém, posta num monte na Casa da Moeda para ser derretida; e o próprio Herculano, insuspeito de simpatia miguelista, lamentaria encontrar em mercearias e açougues, embrulhando carne ou manteiga, partituras antigas e pergaminhos roubados das bibliotecas monásticas. Jamais saberemos o que se perdeu naquele que foi o nosso momento Estado Islâmico. Certo é que a nossa alma foi uma das vítimas.

O novo regime pagou bem aos que o tinham servido na guerra. O muito que fora tomado pelo Estado - terra da aristocracia provincial e da Igreja, que sozinha detinha 1/3 do território nacional e quase todo o Alentejo - foi depois prontamente privatizado a preços insignificantes. Foi o devorismo, e o nome do processo chega e sobra para percebê-lo. Nasceram ali muitas das fortunas - e muitos dos apelidos - que desde então dominam o país. Esta violência extrema exercida pelo centro - Lisboa e a burguesia portuense - sobre o país sentido foi sentida, ressentida e resistida. Bandidos justiceiros, sintomaticamente bandoleiros miguelistas, marcaram o pós-guerra: foi o caso do Remexido e do Zé do Telhado. A Patuleia e a Maria da Fonte, que o regime só debelaria pela intervenção estrangeira, são exemplo disso. Os golpes, guerras civis do liberalismo, foram outra constante. O país chegou a 1850 exausto por meio século ininterrupto de guerra e desastrosamente atrasado face à Europa em industrialização. A última aventura de Saldanha (das raras figuras estimáveis do período), em 1870, pôs fim a uma série incessante de golpes e contra-golpes que fez possível o esforço de modernização de que Fontes foi cabeça e símbolo. Mas era tarde e, pior, era incomportável: pouco para recuperar o país do longo e belicoso sono, demasiado para que o que Portugal podia pagar, foi a antecâmara da bancarrota de 1890. Desse ano em diante, a humilhação frente à Inglaterra, o caos das finanças, a incapacidade governativa e o retorno da instabilidade governativa puseram à monarquia de 34 na estrada da auto-destruição. Dali para a frente, é o que se sabe: a república jacobina, regime tão repressivo quanto incapaz, as suas desordens e o seu colapso; os 50 anos de estabilidade política e recuperação nacional conseguida à custa do silenciamento das liberdades públicas; depois, a perda do Ultramar, o nosso fim como Estado relevante e provavelmente, até, como país viável. Tudo começou há duzentos anos, naquele 1820 tão remoto e tão presente, tão ignorado e tão decisivo, tão desastroso para os nossos destinos. Celebram-no os que nos não queriam permitir celebrar Ceuta. É bizarro mas, no fundo, normal: Ceuta foi o início de algo, 1820 o fim - ou, pelo menos, o início do fim. Aquele espanhol que nos dizia raça de suicidas ouviria o tom das televisões, dos donos de tudo e dos palermas do Facebook e concluiria ter razão.".

Rafael Pinto Borges 

In Pedro Dias