NAÇÃO PSYCHO

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No ano de 2024, 12,8 milhões de embalagens de antidepressivos foram dispensadas em Portugal. Todos os dias, mais de 30 mil embalagens são vendidas nas farmácias portuguesas. O número de consumo de psicotrópicos, em Portugal, é chocante e obriga-nos a refletir.

O consumo destes medicamentos tem aumentado cada vez mais, chegando a atingir máximos históricos, entre 2013 e 2023 a compra aumentou cerca de 80%. Atualmente, Portugal é o maior consumidor de antidepressivos da União Europeia, com valores entre 150 a 163 doses diárias definidas por cada 1000 habitantes.

Portugal destaca-se também pelo consumo de ansiolíticos. O país ocupa o primeiro lugar no ranking da OCDE nesta categoria e o segundo no consumo de antidepressivos. No caso dos tranquilizantes e ansiolíticos, as taxas nacionais chegam a duplicar em relação a países como a Holanda ou Itália. Não se trata apenas de um ligeiro desvio face à média europeia, trata-se de uma diferença estrutural que merece debate público.

A isto soma-se uma zona de sombra preocupante. Para além dos antidepressivos e ansiolíticos, existem ainda antipsicóticos, estabilizadores de humor e psicoestimulantes, utilizados em diversos transtornos psicológicos. No entanto, não existem dados públicos detalhados e facilmente acessíveis sobre o volume de venda destas classes de medicamentos.

Os dados revelam ainda que a venda é particularmente elevada entre a população dos 60 aos 69 anos e entre as mulheres. Este padrão não é inesperado: fatores como maior longevidade, isolamento social, doenças crónicas e desigualdades de género na saúde mental ajudam a explicar a tendência. Ainda assim, a dimensão dos números levanta questões que vão além da estatística.

Perante estes números, os especialistas oferecem uma leitura contraditória. Por um lado, defendem que o crescimento reflete maior sensibilização para a saúde mental, menor estigma e uma maior procura de ajuda. Durante décadas, a depressão e a ansiedade foram silenciadas, hoje, são discutidas abertamente. O aumento da utilização de antidepressivos pode ser, nesse sentido, um sinal positivo: mais pessoas estão a ser diagnosticadas e tratadas.

Contudo, a realidade não é bem essa, em 2019, 975 mortes foram causadas por suicídio ou por lesões autoimpostas. Estima-se que apenas um quarto das pessoas com perturbações mentais receba algum tipo de tratamento, e apenas 10% tenha um acompanhamento considerado adequado. Estes números revelam um contrassenso angustiante, apesar do elevado consumo de psicotrópicos, uma parte significativa da população continua sem acesso a cuidados de saúde mental de qualidade.

Vários especialistas reconhecem que, em muitos casos, a medicação surge como resposta rápida para problemas sociais complexos, quando o sofrimento tem raízes estruturais, a solução farmacológica pode ser insuficiente ou funcionar como algo temporário.

O debate não deve cair em simplismos. Não se trata de demonizar medicamentos que são, para muitos, essenciais e salvadores. Mas também não podemos ignorar que liderar tabelas de consumo não é, por si só, sinal de uma sociedade mais saudável. A verdadeira questão é saber se estamos a tratar as causas ou apenas a mitigar sintomas.

Entre o progresso no combate ao estigma e o risco da medicalização excessiva da vida, Portugal enfrenta um desafio crucial: transformar o aumento da prescrição num aumento efetivo de cuidado, acompanhamento e prevenção. Porque saúde mental não se mede apenas em embalagens vendidas, mede-se na qualidade de vida das pessoas.

Iara Santos
27-02-2026