GOVERNO REFORMA A IDEIA: “NÃO HÁ ALMOÇOS GRÁTIS!”

4 GOVERNO REFORMA1

 

Num gesto firme de responsabilidade nacional, o Primeiro-Ministro Luís Montenegro anunciou esta semana que baixar a idade da reforma seria uma medida "irresponsável", "impossível" e capaz de destruir a sustentabilidade da Segurança Social, o futuro das gerações mais novas e provavelmente a estabilidade do sistema solar.

A mensagem não podia ser mais clara: “não há dinheiro!”

Não há dinheiro para professores exaustos, para trabalhadores com costas em falência técnica, para quem passou quatro décadas a ouvir "aguente mais um bocadinho". Não há dinheiro para quem chega aos 66 anos e 9 meses e percebe que a esperança média de vida aumentou, mas a esperança média no país nem por isso.

No entanto, O Ponney descobriu que o dinheiro em Portugal sofre de uma condição muito específica e fascinante, pois não desaparece e apenas muda de morada.

A revelação surge poucos dias depois da polémica em torno da reforma antecipada de Mário Centeno aos 59 anos. A discussão incendiou o espaço público porque muitos portugueses, que calculam a sua própria reforma recorrendo a cartas do tarot e pensamento mágico, ficaram surpreendidos ao descobrir que existem realidades paralelas no Estado português.

Numa dessas realidades, o cidadão comum trabalha até idade suficiente para começar a interessar-se por descontos de próteses dentárias. Noutra realidade, certas carreiras públicas parecem atingir o estado de iluminação espiritual mais cedo.

Mas a história não acaba aqui. Existe ainda uma espécie de coleção vintage da política nacional, com dezenas de antigos titulares de cargos políticos abrangidos por regimes antigos de subvenções vitalícias adquiridas ao abrigo de regras entretanto revogadas.

É quase enternecedor. O país que explica diariamente aos jovens que "não há almoços grátis" conseguiu durante anos criar uma modalidade institucional muito mais avançada, agora em vias de internet onde se recriou a frase para: "não há almoços grátis, mas apenas para vocês".

Os defensores destas diferenças recordam que tudo foi muito legal. E têm razão. Em Portugal existe frequentemente uma distinção sofisticada entre aquilo que é legal e aquilo que leva alguém a olhar para a televisão e murmurar de si para si: "espera lá..."

Entretanto, o cidadão comum continua a assistir ao espetáculo. Trabalha mais anos, desconta mais anos, espera mais anos e, no final, recebe a promessa de que todo este esforço é necessário para proteger as gerações futuras.

As gerações futuras, por sua vez, observam tudo isto e parecem estar a tirar uma conclusão simples, ora se o sistema funciona a duas velocidades, o problema não é apenas a velocidade é a estrada que os leva para fora de Portugal.

E talvez seja aí que reside o maior risco para uma democracia. Não quando as pessoas discordam das decisões, mas quando começam a acreditar que as regras mudam consoante quem as usa sem passar cartão à população. Exceto quando andam em campanha política na caça ao voto.

Porque indignação acumulada é como dívida pública, com juros e tudo, durante muito tempo parece abstrata. Até ao dia em que aparece alguém disposto a cobrá-la.

Cuidado!

AG
29-05-2026