LUÍS XVI, MARIA ANTONIETA E BEAUMARCHAIS: DELÍRIOS DE UMA AUTO-LIQUIDAÇÃO SOCIAL

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Luís XVI e Maria Antonieta realizaram o seu casamento em 19 de Abril de 1770. Foi com muito temor que a rainha, nova e inexperiente, se viu arrancada da sua originária casa, na corte austríaca, e enxertada no ambiente parisiense.

Depressa se habituou aos novos ares da aristocracia francesa. O casamento, na sua dimensão sexual estrita, foi um inferno. Luís XVI padecia de fimose, ou seja, de um estrangulamento do prepúcio, o que transformava num martírio todos os seus relacionamentos sexuais. Luís possuía um temperamento hesitante e bisonho. Dava-se com prazer a trabalhos manuais, sobretudo aos de marcenaria, e nem sequer reparava que muitos dos aristocratas do seu círculo mais imediato troçavam dele, nas suas costas.

Maria Antonieta, para evitar as etiquetas da corte e talvez também a proximidade do marido, fixou a sua residência habitual no palácio do Petit Trianon, em Versalhes. Era aí adulada por um círculo muito restrito de aristocratas de ambos os sexos. A rainha declarava o seu mais íntimo entusiasmo pela França e pelos seus súbditos franceses, mas não fazia a mais pequena ideia sobre o viver concreto da gente comum. Deslumbrava-se com as festas que ela própria organizava em Versalhes, gastando em cada uma delas somas muito avultadas.

Maria Antonieta foi, no início, bem aceite pela generalidade da população francesa, mas em breve se impopularizou. A opinião pública passou a censurar-lhe os seus hábitos de dissipação, atribuindo-lhe, com manifesto exagero, episódios românticos de infidelidade conjugal. Acabou por ser mencionada como a Austríaca, ficando assim demonstrada a cisão entre ela e os súbditos franceses.

Foi no tempo de Maria Antonieta que se confirmou a importância de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais, homem de mil ofícios e de não poucos artifícios de sobrevivência. Beaumarchais foi músico, relojoeiro, diplomata, espião, político por conta própria e por conta alheia e também literato, praticando o género da comédia satírica. Entre outras, ficaram famosas duas das suas peças, nas quais manejou diversos expedientes do riso. Foram elas O Barbeiro de Sevilha e As Bodas de Fígaro.

Numa França que se encaminhava a passos largos para o confronto revolucionário, a peça As Bodas de Fígaro ridicularizava a forma de vida, os jeitos e trejeitos, os usos e abusos e toda a sorte de desmandos das camadas sociais hegemónicas.

Luís XVI pressentiu inteligentemente o dano que poderia ser causado à monarquia por essa tremenda obra de Beaumarchais. Declarou que essa peça não poderia jamais ser representada, por minar os alicerces do equilíbrio institucional e social. O mais espantoso é que foi a própria aristocracia a fazer de Beaumarchais o literato e o satirista da moda.

Os salões da aristocracia organizaram sessões de leitura para mofarem ... dessa mesma aristocracia, através dos demolidores libelos contidos nas Bodas de Fígaro.

O cúmulo desta cegueira foi atingido pela rainha, na sua pequena corte do palácio do Trianon. O rei já tivera de ceder às pressões da opinião pública, consentindo que em Abril de 1784 a peça fosse publicamente apresentada, com enorme sucesso. Maria Antonieta aproveitou-se dessa abertura régia. Em Agosto de 1785, fez encenar e representar O barbeiro de Sevilha no seu teatro do Trianon, levando a insânia ao ponto de ser ela a desempenhar um dos papéis da tremenda sátira.

As sociedades, quando entram em putrefacção, enveredam pelo delírio da auto-liquidação. O caso da labilidade da rainha Maria Antonieta ilustra cabalmente este ponto. Claro que naquele tempo ainda não se acusava a Igreja Católica por existirem uns tantos padres pedófilos e ainda não se desqualificavam Universidades por nelas existirem dois ou três docentes assediadores. Isso aconteceria muitíssimo mais tarde. A esposa de Luís XVI pagou a ingenuidade com a própria cabeça, que lhe viria a ser cortada. Neste momento ninguém poderá saber qual a factura que virá a ser apresentada pelos demolidores aos incautos que vivem sob um regime que se revê na palavra "democracia". Rolarão cabeças no futuro? Em sentido próprio ou figurado? Verá quem por cá andar, nos próximos tempos

Amadeu Homem